O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, minimiza alertas recentes de pesquisadores e executivos sobre os riscos existenciais da inteligência artificial (IA). Trump afirma que a principal preocupação do país é assegurar a liderança tecnológica global contra a China, em detrimento de temores relacionados à segurança de longo prazo da tecnologia.

Questionado por jornalistas, ao deixar Dallas, se tinha alguma preocupação com a possibilidade de a IA levar à extinção da humanidade, Trump disse “não ter nenhuma”, reiterando sua visão de que a disputa geopolítica é a prioridade.

O que aconteceu

  • Inteligência artificial: Donald Trump descarta alertas de pesquisadores sobre riscos existenciais da IA, focando na disputa geopolítica com a China.
  • Trump afirmou que sua principal preocupação é garantir que os EUA vençam a corrida tecnológica contra a China, destacando que os americanos estão “liderando a China agora por um bom período”.
  • A declaração do presidente contrasta com o posicionamento de diversos especialistas e executivos da indústria, que têm alertado para os perigos da tecnologia e a necessidade de uma desaceleração controlada.

A declaração do presidente cristaliza a lógica que já orienta a política americana de IA sob Trump: qualquer risco de segurança é secundário diante do imperativo de vencer a China na corrida tecnológica.

Isso ajuda a explicar por que o governo americano tem, ao mesmo tempo, alertado sobre práticas de “destilação” por parte de laboratórios chineses — na semana passada, FBI, NSA e CISA nomearam seis empresas chinesas de IA acusadas de minerar sistematicamente modelos de fronteira americanos — e resistido a qualquer medida que possa desacelerar o próprio desenvolvimento americano da tecnologia, mesmo diante de alertas vindos de dentro dos laboratórios dos EUA.

Corrida tecnológica sobrepõe segurança?

A fala acontece na mesma semana em que Sam Altman, CEO da OpenAI, disse a funcionários estar aberto a desacelerar o desenvolvimento de IA de fronteira, em coordenação com outros laboratórios — sinal de que, mesmo dentro da própria indústria americana, já existe divergência sobre o ritmo ideal da corrida.

Trump, porém, sinaliza que o governo não vê esse tipo de desaceleração como prioridade, ao menos não enquanto a vantagem sobre a China for medida em termos de meses, não de anos.

A declaração ocorre após uma sequência de alertas públicos feitos por pesquisadores e executivos ligados aos principais laboratórios de inteligência artificial.

Evan Hubinger, líder de ciência de alinhamento da Anthropic, afirmou nesta semana que estima em mais de 10% a chance de uma IA avançada provocar a extinção humana em uma década. Segundo ele, a indústria ainda não desenvolveu um plano confiável para garantir o alinhamento de sistemas que possam superar a capacidade humana.

Divergência na indústria da IA

O alerta recebeu apoio de Geoffrey Hinton, pesquisador considerado um dos pioneiros da IA moderna, vencedor do Prêmio Turing e do Nobel. Ele afirmou que o risco de extinção provocado pela tecnologia “não é descabido”.

A discussão também ganhou força após a saída pública de Jacob Coxon, ex-pesquisador de pré-treinamento da OpenAI e da Anthropic. Ao deixar as empresas, ele afirmou que ambas estão “apostando com nossas vidas” na disputa pelo desenvolvimento de uma superinteligência.

A posição de Trump contrasta com manifestações de integrantes da própria indústria. Dean W. Ball, responsável por estratégia de futuros da OpenAI, afirmou nas redes sociais que assinou a chamada “carta de ritmo”, documento que defende uma desaceleração no avanço das capacidades de IA.

“Já alcançamos, ou logo alcançaremos, o ponto em que especialistas humanos não conseguem dar garantias robustas de que sistemas de IA de fronteira não farão coisas perigosas e imprevisíveis. Sistemas de IA estão se tornando mais inteligentes que os melhores humanos em algumas áreas e, quase por definição, é muito difícil prever o que algo mais inteligente que você vai fazer”, escreveu Ball.

O executivo também questionou a ideia de uma corrida global para desenvolver sistemas cada vez mais avançados. Para ele, “corrida” sempre foi uma metáfora ruim para esse tipo de empreendimento, e subestima o que está em jogo.

“Não faz sentido correr para um resultado em que IAs mais inteligentes que humanos estão fazendo coisas imprevisíveis — na verdade, seria uma loucura. O que exatamente significa “vencer” nesse contexto?”, questionou.

O papel dos governos na segurança da IA

Ball defendeu que governos tenham um papel maior na segurança do desenvolvimento da tecnologia, com foco em alinhamento, interpretabilidade e monitoramento.

Segundo ele, é hora de encerrar a era da “corrida” no desenvolvimento de IA, e o governo deveria atuar como parceiro nessa próxima fase — incluindo esforços diplomáticos internacionais, já que as consequências negativas de um país avançando sozinho seriam sentidas globalmente.

Na mesma publicação, o executivo criticou a polarização crescente no debate sobre inteligência artificial. “Talvez seja só minha experiência pessoal, mas senti a política de IA ficar muito mais mesquinha e tribal este ano. Isso é muito mais sério do que todas essas brigas”, afirmou.

Da IstoÉ

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