19/06/2020 - 15:08
Para muitos em Tulsa, cenário de um dos piores massacres raciais nos Estados Unido em 1921, a escolha da cidade pelo presidente Donald Trump para seu primeiro comício desde o início da pandemia reabre uma ferida “sempre dolorosa”.
O presidente conservador, muitas vezes acusado por seus críticos de difundir mensagens racistas enquanto defende a América tradicional, originalmente havia planejado sediar seu evento em Tulsa, em 19 de junho, no “Juneteenth”, dia em que se celebra o fim da escravidão.
Diante das reações indignadas, principalmente dos parlamentares negros, Trump anunciou no Twitter que adiaria o ato até o dia seguinte, “por respeito” à data simbólica.
Mas o remédio permanece amargo, especialmente depois dos protestos em massa para denunciar a morte de George Floyd nas mãos de um policial branco, um símbolo de discriminação e brutalidade policial contra minorias.
“Uma grande maioria, se não todas as pessoas, sentiu a chegada de Trump como um tapa na cara e um desrespeito”, disse o reverendo Mareo Johnson, líder do movimento Black Lives Matter em Tulsa, à AFP.
Johnson vai participar no sábado de uma manifestação em frente ao comício de Trump.
“Negros, mas também brancos, latinos, indígenas … muitas pessoas diferentes veem Trump como um representante do ódio e do racismo, na medida em que ele não os repreende”, enfatizou.
O magnata republicano, que costuma ser conhecido por seu fraco conhecimento em geografia e história, pode não estar ciente da importância do “Juneteenth” e da existência do massacre de Tulsa em 1921, desconhecido por muitos de seus concidadãos.
“Talvez ele não soubesse … Mas, neste caso, adiar o ato para o dia seguinte ainda parece um tapa na cara!”, respondeu Johnson, de 47 anos, que disse ter sido vítima de brutalidade policial em sua juventude em várias ocasiões.
– “Em negação” –
O massacre racial de 1921, que deixou cerca de 300 mortos e devastou o distrito negro de Greenwood, “ainda é muito sensível, muito doloroso”, disse Michelle Brown, diretora de programas educacionais do Greenwood Cultural Center.
“Como comunidade, ainda estamos muito indignados e comovidos com o fato de que algo assim tenha acontecido” com toda a impunidade e sem que nenhuma das famílias que perdeu tudo no incêndio de 1.200 casas tenha recebido qualquer indenização, disse ela.
Tulsa é segregada até hoje em sua geografia: ao norte, os bairros negros, e ao sul, a população branca. Cerca de 15% dos 400.000 residentes são negros.
“Ainda temos dificuldade em falar sobre essa história na cidade. Foi apenas no ano passado que o estado de Oklahoma resolveu tornar obrigatório o ensino desse episódio nas escolas”, disse Brown.
“Mas há muitas pessoas que não conhecem essa história em Tulsa. É vergonhoso para elas: estão em negação. Não podemos esquecer o que aconteceu, faz parte de nós”, enfatizou.
Para ela, a chegada do presidente Trump no sábado é “uma má ideia” no contexto atual.
As coisas, no entanto, estão melhorando lentamente.
Em 2001, o estado de Oklahoma, confortavelmente controlado pelo Partido Republicano, pediu suas desculpas oficiais pelo massacre, e uma comissão de inquérito foi formada.
Após anos de negativas das autoridades municipais, o novo prefeito de Tulsa concordou em financiar escavações em busca de valas coletivas onde as vítimas de 1921 podem ter sido enterradas por seus assassinos.
O município contratou em fevereiro o primeiro chefe de polícia negro em sua história, Wendell Franklin, comenta com satisfação o reverendo Mareo Johnson.
Há alguns anos, seu antecessor branco se desculpou pela passividade da polícia durante os eventos de 1921.
“Perguntei a diferentes pessoas de cor por que era tão difícil recrutar policiais da comunidade afro-americana. E muitos me disseram que isso se devia ao massacre racial”, disse Chuck Jordan ao deixar o cargo.