Nos próximos meses, a filial brasileira da Siemens, grupo alemão que começou suas atividades em 1850 na área de energia elétrica e que fatura hoje US$ 70 bilhões ao ano, estreará em um ramo totalmente novo. Não produzirá turbinas nem motores, mas conteúdo para páginas na Internet de companhias de celulose ou empresas de saúde. Seis profissionais da multinacional se dedicam desde junho a montar a estratégia de invasão dessa área de negócios. ?O potencial é imenso. Em outros países a Siemens já fatura US$ 5 bilhões ao ano com essa atividade?, explica Aluizio Byrro, diretor geral de telecomunicações da empresa. O salto da multinacional faz parte de uma tendência, a convergência digital, que une a informática às telecomunicações. O negócio parece confuso, mas pode ser resumido em poucas palavras: em breve, companhias irão explorar ao mesmo tempo todas as searas do mundo digital ? telefonia, internet, conteúdo ? para atender diretamente o consumidor, seja ele residencial ou corporativo.

A Siemens já produz torres de transmissão de telecomunicações, roteadores (equipamentos que distribuem dados em grandes redes, como a Internet), aparelhos de telefonia fixa e celular e até mesmo computadores. ?Só não temos operadoras de telefonia nem provedores de acesso à Internet?, declara Byrro. Motivo: isso mexeria demais com boa parte de sua clientela e, atravessando essa fronteira, a Siemens poderia brigar com seus próprios fregueses, como a Brasil Telecom. Ela já supervisiona os trabalhos dos centros de telemarketing de seus clientes, como a Companhia Riograndense de Telecomunicações, Xerox e Varig. Cerca de 40% do faturamento de US$ 2 bilhões da Siemens no Brasil vem de negócios ligados a informática e telecom. Equipamentos elétricos, o antigo carro-chefe, são hoje só 30% dos negócios.

O segredo da convergência digital é que informática e telecomunicações trabalham com os números 1 e 0 em sua linguagem e transmitem dados, imagens e voz numa combinação infinita desses dígitos. As empresas só precisam criar sistemas que decifrem as informações enviadas de uma plataforma para outra (de telefonia celular para Internet, por exemplo). Estimativas da Net To Net, companhia especializada nesse trabalho, indicam que apenas 5% dos dados e de voz que circulam pelo País são convergidos. Ou seja, há um mercado de US$ 65 bilhões esperando para ser explorado. ?Hoje fazemos serviços de integração das telecomunicações para clientes corporativos, alugando redes de transmissão de empresas como a AT&T. No final de 2001, no entanto, termina a restrição da telefonia no Brasil e entraremos como operadores diretos?, diz Cláudio Cardoso, presidente da Net to Net.

Sem trégua: Com o fim da restrição à telefonia, empresas invadirão o espaço uma da outra

 

O que se prevê no mercado é uma tremenda bagunça a partir de 2002, quando operadoras de Internet, telefonia fixa e celular e de televisão a cabo ou satélite estarão liberados para invadir o espaço de seus concorrentes. A Embratel, que transmite dados, imagens e voz a longa distância, deu um grande passo nesse sentido. Comprou a AcessoNet, empresa que fazia as conexões do UOL, para ter seu próprio provedor. ?Vamos oferecer acesso direto à rede?, declara Luiz Esmanhoto, diretor da Embratel. Para as regiões mais distantes, como a Amazônia, a empresa possui até equipamentos de conexão a laser, via satélite. A ex-estatal, hoje nas mãos da MCI, está decidida também a ser operadora local no Brasil.