14/05/2008 - 7:00
DURANTE AS OBRAS DE CONSTRUÇÃO do ecoresort Txai, em Itacaré (BA), o empresário Renato Guedes Filho era constantemente assediado por sitiantes da região, interessados em passar adiante os lotes que possuíam na zona rural da cidade. As ofertas, muitas delas a preço de banana, segundo Guedes Filho, colocaram o empresário diante do seguinte dilema: empatar o capital na aquisição das terras ou recusar as propostas e correr o risco de ver as áreas no entorno do empreendimento serem desmatadas para se converter em roçado de mandioca ou, pior, loteamentos clandestinos. Depois de conversas com os sócios, ele optou por um terceiro caminho: a criação de um projeto que combinasse geração de renda e preservação ambiental. ?Mais que uma postura altruísta, estávamos pensando na sustentabilidade do negócio no longo prazo?, explica. Passados cinco anos, o Companheiros do Txai já coleciona marcas importantes. A renda líquida média das 23 famílias participantes varia de R$ 207 a R$ 950. Trata-se de um valor expressivo, levando-se em conta que o plantio de hortaliças, a criação de aves e a produção de artesanato não impedem que os integrantes da família exerçam outras atividades remuneradas. Os Companheiros do Txai recebem cesta básica e contam com assistência técnica e insumos para atuar sob os preceitos da agricultura orgânica, que dispensa o uso de agrotóxico. Os produtos alimentícios seguem direto para a cozinha do resort, que paga por eles o valor de mercado. As peças de artesanato (bonecas, cestos de palha de coco e bolsas, por exemplo) são vendidas nas lojinhas do hotel e da sede do programa.
O sucesso do projeto-piloto gerou dois problemas. Como a produção cresceu muito, o resort não tinha como absorver toda a colheita. Além disso, o Txai passou a ser procurado por um grande número de sitiantes dispostos a aderir à iniciativa. O primeiro ponto foi parcialmente solucionado com a promoção de uma feira orgânica, realizada desde novembro último, nas manhãs de sábado, no centro de Itacaré. Para acolher novos agricultores e reaplicar a idéia em outras localidades do País, o empresário está estruturando o Instituto da Bahia. A ONG começa a funcionar até o final do ano e será encarregada de tocar o Companheiros do Txai e o Txaitaruga (que monitora a desova de tartarugas- marinhas na região). Eles serão rebatizados para evitar a vinculação ao nome do resort. ?Com isso, poderemos viabilizar a adesão de novas empresas da região e de outros Estados?, justifica Guedes Filho. Caberá aos institutos implantar programas de geração de renda e preservação ambiental nas cidades onde o Txai planeja fincar sua bandeira: Salvador (BA), Parati (RJ), Florianópolis (SC) e Chapada dos Veadeiros (GO). Um investimento total estimado em US$ 60 milhões.
A receita de sucesso do Companheiros do Txai, segundo o empresário, está no modelo de gestão. ?Não existe paternalismo . Quem não segue as regras é excluído?, destaca Nice Vidal, coordenadora dos projetos socioambientais do Txai. Os dez mandamentos incluem desde a obrigatoriedade de matricular os filhos na escola até a manutenção do padrão de qualidade de frutas, legumes e hortaliças. Foi seguindo essa trilha que Ronaldo Teixeira, de 26 anos, se tornou um dos mais bem-sucedidos integrantes do grupo. Em uma área de 500 metros quadrados no distrito de Serra Grande (Itacaré), ele fatura cerca de R$ 1,5 mil por mês. Desse total, R$ 950 são obtidos com a venda de alface, rúcula e espinafre para o ecoresort. O restante é fruto da comercialização de produtos para os vizinhos. Nado, como é mais conhecido, não pretende parar por aí: ?Vou ampliar a área de plantação para mais 300 m2?.