A Ucrânia iniciou nesta quinta-feira começou a retirar as armas pesadas da linha de frente no leste do país, um passo fundamental na aplicação do plano de paz, mas o impasse continua entre o Ocidente e a Rússia.

Um jornalista da AFP viu nos arredores da cidade de Artemivsk, 55 km ao norte do reduto rebelde de Donetsk, ao menos quinze canhões em um trator, acompanhado por dezenas de soldados ucranianos se dirigindo para o oeste, para longe da linha da frente.

“A Ucrânia começou a retirada dos canhões de 100 mm da linha de demarcação”, o primeiro passo para a retirada das armas pesadas que será feita sob a supervisão da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), informou o Estado-Maior do exército ucraniano em um comunicado.

Esta primeira etapa levará 24 horas e será seguida pela retirada dos lançadores múltiplos de foguetes Grad e de outras peças pesadas, informou à AFP um porta-voz militar, Anatoly Stelmakh.

Por sua vez, o líder da autoproclamada República Popular de Donetsk, Alexandre Zajarchenko, afirmou que sua forças já retiraram 90% de suas armas pesadas.

Na quarta-feira, os rebeldes à imprensa o que apresentaram como uma retirada das armas pesadas perto de seu reduto de Donetsk, mas a OSCE não foi capaz de confirmar se era de fato uma retirada e não um movimento habitual.

A retirada das armas pesadas, previstas nos acordos Minsk 2 assinados em 12 de fevereiro com a mediação do presidente francês, François Hollande, e da chanceler alemã Angela Merkel, na presença do russo Vladimir Putin, deveria começar no domingo.

Mas Kiev ressaltou que esta medida só seria realizada após o pleno respeito do cessar-fogo.

A trégua estabelecida a partir de 15 de fevereiro parece, finalmente, estar sendo respeitada nos últimos dias no leste separatista do país, onde o conflito deixou mais de 5.800 mortos em 10 meses.

O exército ucraniano não registrou nenhuma nova vítima em suas fileiras pelo segundo dia consecutivo.

As autoridades de Kiev advertiram, no entanto, que estavam prontas para “rever o calendário de retirada em caso de tentativas de ataque” pelos rebeldes pró-russos.

Neste sentido, o exército ucraniano denunciou uma “concentração de tropas inimigas” perto de Mariupol, porto estratégico às margens do Mar de Azov e última grande cidade no leste controlada poe Kiev. Sete drones sobrevoaram a região de Mariupol nas últimas 24 horas segundo o porta-voz Andrii Lysenko.

Mariupol, cuja tomada seria um passo fundamental para construir uma ponte terrestre entre a Rússia e a península da Crimeia, sob a autoridade da Rússia, é considerada como o próximo alvo potencial dos separatistas pró-russos, depois da tomada há uma semana do entrocamento ferroviário estratégico de Debaltseve, ligando as capitais rebeldes de Donetsk e Lugansk.

Neste contexto, o chefe da inteligência dos Estados Unidos, James Clapper, considerou nesta quarta que os rebeldes pró-russos vão esperar até a primavera no hemisfério norte para atacar Mariupol, acrescentando que esta manobra não parece iminente.

Clapper declarou que o objetivo do presidente russo Vladimir Putin é estabelecer uma ponte terrestre com a Crimeia, a península anexada por Moscou há um ano, logo após a queda do ex-líder pró-russo de Kiev, Victor Yanukovytch.

Apesar da relativa calma no terreno, os ocidentais, com os Estados Unidos à frente, parecem pouco convencidos da vontade da Rússia de apaziguar o conflito.

O secretário-geral da Otan, o norueguês Jens Stoltenberg, assegurou que a “a Rússia transferiu nos últimos meses mais de mil peças de equipamento, de artilharia, de sistemas avançados de defesa antiaérea e tanques” para o leste da Ucrânia, e instou Moscou a retirá-las.

Acusado de armar os rebeldes do leste e de enviar tropas regulares, Moscou nega envolvimento na guerra.

“Mentiras”, segundo o secretário de Estado americano John Kerry, que acusou a Rússia e os separatistas pró-russos de não respeitar o cessar-fogo e ameaçou a adoção de novas sanções contra Moscou.

O chefe da diplomacia francesa, Laurent Fabius, ressaltou na quarta-feira que a questão das sanções poderá ser discutida a nível europeu em caso de ataque contra Mariupol.

“Por trás dos apelos se esconde a má vontade destes protagonistas, Estados Unidos e União Europeia, a respeito da aplicação do que ficou acordado em Minsk em 12 de fevereiro”, declarou o ministro russo das Relações Exteriores, Serguei Lavrov, em uma referência ao acordo de cessar-fogo no leste.

“Todo o mundo entende perfeitamente que não existe um cessar-fogo ideal”, disse Lavrov, antes de recordar que a OSCE informou uma redução da intensidade dos combates nos últimos dias.

No plano energético, a tensão entre a Rússia e a Ucrânia aumentou desde que gigante do gás russa Gazprom começou na semana passada a abastecer diretamente as áreas sob controle rebelde, justificando que Kiev tinha deixado de fazê-lo.

A Comissão Europeia propôs aos ministros da Energia de ambos os países a realização de uma reunião na segunda-feira em Bruxelas para solucionar a questão, temendo que uma ruptura entre Kev e Moscou afete o fornecimento de gás à Europa.

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