O rosto envelheceu, mas o sorriso está lá, intacto. Dezesseis anos depois de deixar o governo e cair na quase clandestinidade dos seus negócios privados, Shigeaki Ueki continua o mesmo. Quem se lembra dele como ministro das Minas e Energia do governo Ernesto Geisel, ou como presidente da Petrobras na gestão de João Figueiredo, não terá dificuldade em reconhecê-lo, mesmo avô às vésperas de completar 65 anos. Os cabelos pouco embranqueceram e a energia que o levou a ser o mais jovem diretor-financeiro da Petrobras, aos 34 anos, está lá, redirigida para as atividades de consultor internacional em petróleo e empresário do setor químico. ?Deixei o governo na hora certa, sem saudades?, diz Ueki. ?Tem gente que gosta de poder. Eu gosto de responsabilidade.?

Isso não significa que o homem que esteve no pelotão de frente no período de maior crescimento da economia brasileira tenha se desligado dos grandes temas nacionais. Ao contrário, ele transpira idéias e opiniões. Não gostou da forma como as privatizações fragmentaram as grandes empresas brasileiras. Não gosta da maneira como o Brasil está entrando despreparado no mundo globalizado. Não gosta de ver o País importando de tudo, de algodão a químicos, sem ocupar o lugar que lhe cabe no planeta como grande produtor. ?Basta olhar o mapa do mundo para ver que o Brasil tem vocação para ser uma grande economia?, diz ele. ?Temos de ter brios.?

Pessoalmente, o ex-ministro está muito bem. É sócio em três empresas do setor químico, dirige uma outra na área de comércio exterior ? a Comercial Yamamoto ? e recentemente juntou-se à Seccional, de Curitiba, que produz postes com ligas de aço especiais. ?Estou no mundo do small is beautiful?, diz ele. Nesse universo dos pequenos projetos está fazendo bonito. Mantém uma fábrica em Juazeiro, na Bahia, para produção de resinas, é sócio da portuguesa Socer em uma planta química de Uberaba e participa, em São Paulo, da Resitec, fabricante de insumos para borracha sintética, que fatura R$ 35 milhões por ano. Até 1994, Ueki era dono de uma fábrica de lâmpadas em Guarulhos, a Sadokin, que tinha 1.200 funcionários e chegava a fazer R$ 80 milhões por ano. Mas essa empresa quebrou com a chegada dos produtos asiáticos, na época do real supervalorizado. ?Era um absurdo. Tínhamos que concorrer com contrabando e produtos subfaturados?, queixa-se, na pele do empresário nacional. ?Fechei a fábrica e demiti todo mundo.?

Se o empresário teve maus momentos, o consultor em petróleo nunca viu horizonte turvo. Em 30 anos de trabalho na área de energia, Ueki fez amigos no mundo inteiro e montou uma rede de captação de informações que lhe assegura um olhar privilegiado sobre o mercado. Privilegiado, mas não onisciente. ?Consultor erra muito?, diz ele, com modéstia. ?É muito difícil falar sobre o futuro.? Com ou sem erros, ele tem uma grande lista de clientes internacionais (que mantém secreta, por exigência de contrato) e passa dez dias por mês no Exterior para atendê-los. Seria até mais fácil morar fora, mas isso o paulista de Bastos não agüenta. ?Não sei viver longe da bagunça do Brasil?, diz ele. Curiosamente, garante que não ficou rico com a atividade de consultor. ?Ninguém me paga muito por isso?, afirma. ?Talvez porque eu esteja na velhíssima economia.?

Se ele tivesse de dar consultoria ao Brasil, teria a receita na ponta da língua: fortalecimento do mercado de capitais, reforma tributária e reforma trabalhista, além de persistência no combate à inflação. Essas são as bases, segundo o ex-ministro, para a construção de um mercado interno forte e de uma economia competitiva internacionalmente. E a saída para a situação que mais o preocupa: a balança comercial deficitária. O homem que dirigiu o Ministério da Indústria e Comércio no governo Castelo Branco inflama-se com o fato de o país estar importando milho, cacau e fertilizantes. ?Abraçamos a globalização de forma afoita, sem estarmos preparados?, lamenta. Pode parecer conversa de saudosista, mas muita gente concordaria com ela.