23/02/2001 - 7:00
Um dos piores negócios que um investidor desavisado pode fazer é levar demasiadamente a sério os relatórios que os bancos e as corretoras divulgam todas as semanas recomendando a compra ou a venda de alguma ação. Antes que as recomendações cheguem ao pequeno investidor, por meio de jornais especializados e agências de notícias na Internet, elas são entregues aos clientes caixa alta das instituições financeiras e exploradas até a última gota. As instituições seguram as análises em sigilo por um tempo, depois de enviadas apenas para os clientes preferenciais, para dar tempo a eles de ir ao mercado e transformar a dica em dinheiro. Quando o pequeno investidor lê a recomendação, a dica já envelheceu e, graças à velocidade com que as coisas acontecem no mercado, se transformou em mau conselho. ?A informação chega às ruas com até 20 dias de defasagem?, diz Humberto Casagrande Neto, presidente da Associação Brasileira dos Analistas de Mercado de Capitais (Abamec), que representa 2.100 associados do País.
A elite escolhida para ter acesso às informações produzidas pelos analistas das melhores instituições financeiras é composta por fundos de pensão, empresas de grande porte e pessoas físicas donas de grandes fortunas. São eles que movimentam as maiores quantias no mercado de capitais e, por isso, são também eles os clientes que geram as maiores receitas para bancos e corretoras. Quanto mais exclusivos forem os relatórios, melhor o relacionamento das instituições com seus clientes mais rentáveis e maior o estímulo para que façam mais negócios.
A mesma lógica de privilegiar os clientes que geram mais receita faz com que os relatórios sigam seu caminho, após passarem pelos investidores de grande porte, e parem na mesa dos investidores de classe média alta. São os que têm investimentos na casa dos R$ 100 mil e que, por isso, têm dinheiro demais para caírem na vala comum dos clientes de varejo, mas não são ricos o bastante para serem tratados como os milionários das áreas de private banking. O privilégio é duvidoso: receber uma dica antes do público geral dá sensação de tratamento vip, mas na maior parte das vezes pouco adianta saber de uma indicação de compra de ação depois que os grandes do mercado já tiveram tempo de negociá-la nas bolsas. Alguns bancos preferem simplesmente pular essa etapa e, uma vez atendidos os clientes maiores, divulgam seus relatórios direto para o público.
Quando as sugestões de ações chegam para os pequenos, a oportunidade de compra já passou. ?Em um mundo globalizado, uma defasagem de horas já causa um estrago enorme?, ressalta Casagrande, da Abamec. Vinte dias, então, é um atraso fatal. O investidor que não sabe o terreno em que está pisando e acompanha cegamente a indicação de uma análise corre o risco de estar entrando no mercado quando o papel já subiu demais e já é hora de sair. A falta de informação dos pequenos investidores é motivo de anedotas no mercado. ?Quando até o ascensorista do seu prédio está comprando o papel, já chegou a hora de vender?, diz o presidente da Abamec, citando uma antiga máxima das mesas de operações.
Enquanto o pequeno investidor padece para ter acesso à informação, o grande não encontra grandes obstáculos. ?Às vezes convocamos reuniões com analistas por telefone, quando queremos discutir a situação de um papel?, exemplifica Eliane Lustosa, diretora financeira e de investimentos da Petros, fundo de pensão dos funcionários da Petrobras que tem ativos de R$ 8,7 bilhões. A rotina da divulgação dos relatórios, para um investidor como uma fundação desse porte, é apenas um complemento a esse trabalho de troca permanente de informações. A disponibilidade dos analistas para atender clientes tão grandes é total. ?Ligamos para alguns analistas em casa ou no celular?, conta a diretora.
A atenção que os investidores dedicam ao trabalho dos analistas nem sempre corresponde às condições de que eles dispõem para elaborar os relatórios. ?Dou conta do trabalho, mas a tarefa não é nada fácil?, diz um analista, que acompanha quase 20 empresas, entre elas estrelas da complexidade de Vale do Rio Doce, Embraer, Globocabo e Petrobras. O tempo disponível para examinar cada empresa é ainda menor do que parece porque um analista tem que ler diariamente cinco jornais, responder e-mails, escrever boletins diários e, a cada três meses, dar conta dos relatórios trimestrais. ?É claro que gostaria de dedicar mais tempo às empresas que cubro, mas a palavra de ordem em todas as instituições financeiras é corte de gastos?, diz.
Não há regulamentação específica para a profissão no Brasil. A Abamec quer instituir o registro de analista, a exemplo do que existe nos Estados Unidos, e sonha com um exame obrigatório semelhante ao que os candidatos a advogado fazem na OAB. O registro seria também uma forma de coibir deslizes. ?Se um analista cometer uma irregularidade, seu registro será cassado e ele será impedido de trabalhar no mercado?, diz Casagrande.