NA MADRUGADA DA QUINTA-FEIRA 14, um grupo de senhores engravatados deixou o escritório do Pinheiro Neto Advogados, no centro do Rio de Janeiro. Do encontro, que se estendera por toda a noite, participaram representantes da gigante do petróleo Chevron, dona da marca Texaco, e do Grupo Ultra, que mantém a bandeira Ipiranga. Juntos, eles haviam dado os últimos retoques no contrato em que o Ultra adquire toda a área de distribuição de combustível da empresa americana no Brasil. Por R$ 1,16 bilhão, os 1.953 postos da Texaco foram transferidos para a corporação brasileira. O negócio a levou ao segundo lugar do ranking nacional, com 23% de participação, atrás apenas da BR, o braço da Petrobras nesse setor. Além disso, acrescentou à sua estrutura 48 bases de distribuição, entre próprias, terceirizadas e operadas em pool com outras organizações.

Porém, o principal dividendo extraído do negócio é estratégico. Cerca de um terço da operação da Texaco concentra-se no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, justamente onde o Ultra não estava presente – na compra da Ipiranga os postos nessas regiões ficaram com a Petrobras. São os Estados nos quais o consumo de combustível mais cresce no País – 14% ao ano, contra uma média nacional de 11%. “A partir de agora, com essa aquisição poderemos otimizar as bases de distribuição e aumentar nossa competitividade”, afirma Pedro Wongtschowski, presidente do Grupo Ultra.

Na realidade, a aquisição da Texaco começou a ser costurada tão logo os representantes do Ultra assinaram o contrato de compra da Ipiranga, em fevereiro de 2007. Na ocasião, Wongtschowski sabia que a rede recém-adquirida deixava dois flancos abertos em sua estratégia. Primeiro: como a Petrobras ficou com os postos da Ipiranga no Norte e Nordeste do País, o Ultra não teria presença alguma nesses mercados – e a atuação nacional é importante, sobretudo para atender clientes corporativos, como indústrias e transportadoras. Segundo: a escala necessária para esse setor não estava garantida apenas com os postos do Sul e Sudeste. Por isso, em abril de 2007, Wongtschowski despachou seus executivos para as cidades de Houston (EUA), Irving (EUA) e Londres, onde respectivamente ficam os quartéis-generais da Chevron, dona da Texaco, da Shell e da Exxon (leia-se Esso). Nesses contatos, feitos sem intermediação de bancos ou consultorias, os brasileiros passavam o recado: o Grupo Ultra tinha planos de expansão e estava disposto a avaliar a compra dos ativos dessas empresas no Brasil. A Shell indicou que não se interessava em deixar o País. A Esso seguiu o caminho tradicional nesses casos e entregou o mandato de venda para um banco e abriu uma espécie de leilão. O Ultra participou da disputa, mas quem levou a melhor foi a Cosan, o maior grupo de usinas de álcool do País.

Restava a Texaco. No final de 2007, veio o sinal. Um emissário da Chevron desembarcou em São Paulo e dirigiu- se à sede do Grupo Ultra, na avenida Brigadeiro Luís Antônio, região central da capital paulista. Lá, anunciou que sua empresa gostaria de receber uma proposta oficial, com valores e condições de pagamento, para passar adiante seu negócio de distribuição. O preço e a engenharia financeira não chegaram a ser um empecilho na negociação dos meses seguintes. O Ultra lançou mão de recursos do próprio caixa para efetivar a transação. As conversas mais delicadas giraram em torno da marca Texaco. A multinacional queria tirar a bandeira do território brasileiro o mais rápido possível, mas o Ultra precisava dela, sobretudo nas três regiões onde não tinha operações. As duas partes chegaram a uma solução intermediária. No Norte, Nordeste e Centro-Oeste, a marca continuará viva até 2014 – a Petrobrás tem o direito de usar o logotipo da Ipiranga até 2012. Já no Sul e Sudeste, o nome Texaco poderá ser utilizado por apenas três anos. “Primeiro, vamos mudar a identidade visual dos postos nos Estados onde já atuamos como Ipiranga”, diz Leocádio Antunes Filho, principal executivo da Ipiranga. O prazo para a migração começa a ser contado em janeiro de 2009, quando o Ultra assumirá de vez os negócios da Texaco. Até lá, duas outras atividades da Chevron no Brasil, a produção de lubrificantes e a exploração de petróleo, serão separadas da área de distribuição de combustível.

A aquisição colocou o Ultra em um patamar próximo das maiores corporações brasileiras. Antes da compra da Ipiranga, suas receitas somavam R$ 5 bilhões. A incorporação da Texaco o levará a um faturamento anualizado de R$ 36 bilhões, incluindo os demais negócios do grupo, como distribuição de gás, com a marca Ultragaz, petroquímica, e logística. “Para o grupo, o acordo com a Texaco foi ótimo, porque lhe permitirá atuar nacionalmente e reduzir custos graças às sinergias”, avalia Vladimir Pinto, analista da Unibanco Corretora. Trata-se também de mais um passo rumo à concentração no setor de combustíveis brasileiro, cada vez mais dominado por grupos locais. Das cinco maiores bandeiras de distribuição, apenas uma, a Shell, está nas mãos de um grupo internacional. Especialistas acreditam que essa “nacionalização” tenha sido provocada por dois fatores. Um deles é a presença hegemônica da Petrobras no segmento, o que torna a competição mais dura do que em outros países. O outro fator são os problemas com adulteração de combustível e a informalidade de algumas distribuidoras – esse tipo de concorrência diminuiu nos últimos anos, mas continua sendo uma dor de cabeça para os executivos das grandes empresas. E essa situação pode levar o Ultra a novas aquisições? Dificilmente, diz Wongtschowski. “Talvez alguma rede local para reforçar nossa presença nesta ou naquela região, mas não faremos nenhuma aquisição de grande vulto”, garante ele.