20/04/2005 - 7:00
Em segundos, o pequeno avião perdeu altura e mergulhou no mar. O empresário Renato Rique só teve tempo de se desvencilhar do cinto de segurança e voltar à tona. Encontrou sua namorada e o piloto, e juntos nadaram cerca de duas horas até chegar à praia. Rique e seus acompanhantes contaram com um misto de preparo físico e, como ele diz, sorte. ?Às vezes, quando as ondas arrebentavam, achei que não conseguiríamos?, conta ele. ?Foi um sufoco.? A maioria das pessoas, traumatizadas, evitaria a visão do mar por um longo período. Mas dias depois do acidente, Rique apreciava o mar do Rio de Janeiro, do alto de uma pedra no coração do Leblon, e se mostrava satisfeito. Ali, está sendo erguido o mais novo empreendimento do grupo controlado por ele, o Nacional Iguatemi (nada a ver com o Iguatemi de São Paulo e Recife, do empresário Carlos Jereissati). Rique administra nove shopping centers com faturamento total de R$ 2,3 bilhões. O décimo será o Shopping Leblon. O 11º também já tem nome e endereço conhecidos: o Bangu Shopping, instalado na antiga fábrica de tecidos na periferia carioca, tombada pelo patrimônio histórico. No total, serão investidos R$ 500 milhões.
Esse é o resultado mais visível da recente chegada de um sócio de peso para o grupo. No final do ano passado, Rique assinou o contrato de criação da Aliansce, uma associação entre ele e a GGP, segunda maior administradora de shopping centers dos EUA. Trata-se de um colosso de mais de US$ 40 bilhões de faturamento, oriundos de 220 shoppings com 20 mil lojas. Rique entrou com dois de seus mais vigorosos empreendimentos: o Iguatemi, de Salvador, e o Shopping Taboão, no município de Taboão da Serra, na Grande São Paulo. A contrapartida dos americanos veio em moeda sonante, com a injeção de US$ 35 milhões.
O primeiro passo foi arrematar a fatia de 27% que o grupo argentino Perez Companc possuía no Taboão. Depois, os novos sócios desembarcaram no Rio e ficaram com 50% do Shopping Leblon. No Bangu, o Aliansce não tem participação acionária, mas é responsável pela concepção, acompanhamento e administração ? o dono é a João Fortes Engenharia, tradicional construtora carioca. O projeto é sofisticado. A fachada do edifício, feita com tijolos ingleses aparentes, será restaurada com supervisão do patrimônio histórico. Haverá um museu sobre a antiga fábrica. Também foram reservados espaços para a criação de ambientes típicos do final do século XIX, ocasião em que o local foi erguido. O teto será transparente para que a torre com relógio inglês da época seja visível do interior do shopping. ?Será um marco no Rio?, garante Rique.
O Shopping Leblon tem potencial para assumir papel semelhante. Primeiro: está fincado numa região densamente povoada, praticamente sem qualquer espaço disponível, o que coloca o bairro como o metro quadrado mais caro da cidade. Mais: uma gigantesca rocha foi ?cortada? e transformada em um platô, sobre o qual serão erguidos quatro andares para abrigar 240 lojas. Mais de 40 mil metros cúbicos de pedras foram extraídos de lá. Concluído, o local terá uma das mais deslumbrantes vistas do Rio. De um lado, se descortinará a praia e o mar do Leblon. Do outro, da praça de alimentação será possível vislumbrar a Lagoa Rodrigo de Freitas. ?O local será disputadíssimo?, diz Rique. Aos 46 anos, Rique é o sucessor de Newton Rique, prefeito de Campina Grande que, em 1964, foi cassado pelo regime militar logo após o golpe que derrubou João Goulart. Refugiou-se no Rio de Janeiro e dedicou-se ao banco da família, o Industrial de Campina Grande. A instituição cresceu e empregava 11 mil funcionários quando foi comprada pelo Bradesco em 1970. Newton partiu, então, para um negócio inovador na época, os shopping centers. Não parou mais. Com a chegada dos americanos, o caminho parece ter se tornado ainda mais atraente. ![]()