02/11/2001 - 8:00
Como político, Michael Bloomberg é uma incógnita. Democrata histórico, não hesitou em se tornar republicano para conseguir legenda e disputar as eleições para prefeito de Nova York. Financiou do próprio bolso uma campanha milionária (estimada em US$ 55 milhões), com direito a comercial nos intervalos dos jogos finais do campeonato americano de beisebol (US$ 100 mil por inserção de 30 segundos), mas não encarou debates. Ninguém sabe exatamente quais são suas propostas para a cidade. O que se sabe, agora, é que talvez elas sejam o que menos importa para a metrópole, a capital do mundo, o palco da supremacia econômica americana no último século. Destroçados, feridos em seu orgulho pelos atentados terroristas, abalados por prejuízos que superam os US$ 100 bilhões, os eleitores nova-iorquinos escolheram Bloomberg no pleito da semana passada pelo que ele é ? e não pelo que ele quer ser. Votaram no bilionário, no self-made-man que construiu um império da mídia, no executivo com capacidade comprovada no dia-a-dia de uma corporação. Precisam voltar a vencer e, por isso, elegeram um vencedor.
Bloomberg prosperou nos arredores de Wall Street, naquele pedaço da cidade que até 11 de setembro passado servia de QG para o exército de financistas em seu plano de dominação mundial. Hoje as máscaras que os protegem da poeira e do aroma da morte apagou os sorrisos confidentes dos senhores do universo. Bloomberg, entretanto, o manteve como marca registrada durante toda a campanha. E, mais do que nunca, exibiu-o em seus primeiros compromissos como prefeito eleito, na quarta-feira 8. Quem esperava vê-lo como um aprendiz ao lado de raposas como o governador de Nova York, George Pataki, e o atual prefeito, Rudolph Giuliani, acabou assistindo um CEO em ação. Mike, bon vivant e paquerador assumido, queixou-se da ressaca da festa da vitória, que se extendeu até as 5 horas da manhã no B.B. King?s Blues Bar, mas encarou com entusiasmo uma agenda cheia. Às 7h30, já comia ovos com torradas em um café do Bronx, bairro pobre da cidade, com Fernando Ferrer, líder da comunidade latina local. O magnata foi agradecer apoio e votos que normalmente iriam para os democratas, mas que dessa vez caíram na conta dos republicanos, e calar aqueles que o rotulavam como candidato de Manhattan.
Mais tarde, na prefeitura, discursou para os correligionários como se estivesse falando sobre sua empresa para analistas de bancos de investimento. Nada de promessas vãs e populistas. Mike foi objetivo. ?Viveremos um período em que manter empregos será um problema muito sério.? Nada menos que 110 mil postos de trabalho devem desaparecer em Nova York, efeito direto da hecatombe que demoliu as torres do World Trade Center. O orçamento da cidade para o primeiro ano de sua gestão apresenta o maior déficit das últimas décadas, mais de US$ 5 bilhões (curiosamente, o valor estimado da fortuna pessoal de Bloomberg). Caberá a ele convencer os investidores, sejam eles simples moradores ou representantes de grandes corporações, de que o mundo continuará girando em torno de Manhattan ? e que é bobagem deixá-la em um momento de adversidade. Bloomberg tem as armas para fazê-lo. O CEO de Nova York é um vendedor, um homem das comunicações, um especialista no uso dos recursos da mídia. ?Estamos bem, vivos e abertos para negócios?, disse, na noite de sua eleição. Para os nova-iorquinos isso é o que importa. A política pode esperar.