01/04/2009 - 7:00

Sede do banco, em Brasília: CaixaPar terá estrutura enxuta, com apenas 20 funcionários
A lei está pronta e o
mercado já foi avisado. Dentro de algumas semanas, após uma longa espera de cinco meses, sairá do forno o braço de investimentos da Caixa Econômica Federal. Polêmica, a CaixaPar contará com um cofre de R$ 3 bilhões para comprar participações acionárias em construtoras ou empresas de qualquer outro setor, inclusive bancos pequenos e médios. Esse modelo, que contou com forte oposição do setor privado, ainda está em fase final de ajustes na diretoria da Caixa, mas alguns detalhes já estão garantidos. Presidido pelo vicepresidente de finanças do banco, Márcio Percival, a CaixaPar terá uma estrutura enxuta, com cerca de 20 funcionários deslocados do organograma da estatal. Eles se encontram, neste momento, analisando a papelada de pelo menos três bancos e sete construtoras, além da prospecção de outros negócios que possam se encaixar no modelo definido pela Lei 11.908, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no início de março.

Maria Fernanda Coelho, Presidente: “Negócios que forem importantes para a instituição serão incorporados”
Outro fato que também já está definido é a absorção das participações que a Caixa tem na Caixa Seguros, na Caixa Visanet, na qual há parceria com a Visa do Brasil, e na Tecnologia Bancária, a Tecban. Os técnicos da Caixa avaliam que apenas esses ativos somem R$ 1,2 bilhão. “Estamos nos últimos trâmites legais para a publicação do estatuto”, disse a presidente da Caixa, Maria Fernanda Coelho, durante uma audiência no Senado. “Negócios que forem importantes para a instituição serão incorporados.”
Nesse escopo de novos negócios, a CaixaPar deverá priorizar operações em nichos que foram afetados pelo travamento de crédito que abalou o mercado financeiro, entre eles o financiamento de automóveis. Além disso, Percival já recebeu a orientação do Ministério da Fazenda para atuar também no aumento das operações que ainda representam lacunas no portfólio de produtos do banco, essencialmente especializado nos setores de habitação e saneamento, como crédito a médias empresas e a não clientes
Além da criação da CaixaPar, governo também está desenvolvendo o Banco de Investimento, com capital inicial de R$ 2,5 bilhões de
empréstimos consignados e arrendamento mercantil (leasing). Para fazer girar o negócio, a CaixaPar poderá contar com recursos de captação da poupança e do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). “Em 2007, a capitalização do setor imobiliário foi espontânea, mas a crise está reduzindo esse fluxo”, justifica Wilson Gomes, analista habitacional da Associação Brasileira de Mutuários e Moradores. “A medida é importante para o investimento e para a atividade econômica.”
As operações, por sua vez, ficarão restritas às compras de debêntures de empreendimentos tocados por empresas de Sociedade de Propósitos Específicos, atendo-se apenas à participação, e não empresas inteiras, num modelo parecido com o da operação feita pelo Banco do Brasil e o Votorantim, quando a estatal comprou 49,9% do banco da família Ermírio de Morais. “Tanto com construtoras quanto com bancos, esse é o melhor modelo que a Caixa poderá adotar”, explica Henrique Navarro, analista de bancos do Santander. “Do contrário, as empresas se tornariam instituições públicas e perderiam agilidade.” Ainda assim, o prazo para as aquisições foi limitado para até 30 de junho de 2011, podendo ser prorrogado por mais um ano por meio de decreto do Executivo.

Porta-voz dos descontentes com a CaixaPar, o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção, Paulo Safady, afirma que as empresas do ramo são contra a possibilidade de a Caixa comprar todo ou parte do controle de construtoras por temerem o surgimento de concorrentes desproporcionalmente mais fortes no mercado. “O banco detém domínio quase total sobre a aplicação do FGTS, uma das principais fontes de recursos do setor”, afirma Safady. “Além disso, estão concentrados na Caixa 30% do dinheiro aplicado em cadernetas de poupança, que também financiam as construtoras.” Por esse ângulo, uma construtora ligada à Caixa poderia ter vantagem na obtenção do dinheiro ou ser privilegiada com o acesso a informações estratégicas das concorrentes que solicitassem financiamento ao banco. Procurada por DINHEIRO para esclarecer os temores dos empresários, a Caixa preferiu não se manifestar.
Além da criação da CaixaPar, o governo também está desenvolvendo o Banco de Investimento (BI), que terá um capital inicial de R$ 2,5 bilhões. A papelada já está sendo analisada pelo Banco Central e a previsão é que o BI entre em funcionamento a partir do segundo semestre. Na prática, a Caixa vai desagregar de sua estrutura a área de administração de ativos de terceiros, hoje sob a tutela do vicepresidente do banco, Bolívar Tarragó, que deverá ser presidente do BI. A criação de uma área especializada é uma estratégia que promete dar mais garantia aos clientes ainda receosos com a crise financeira. “Chegou a hora de mostrar que a Caixa também cuida bem de seus investidores privados”, diz uma fonte do banco, referindo-se a produtos de concorrentes como Itaú e Bradesco. “Somos a quarta maior administradora de ativos do País, mas não tínhamos uma estrutura dedicada a esse setor.”
A expectativa é de que o BI chegue ao fim do ano com uma carteira de R$ 5 bilhões, o que ajudaria a Caixa a injetar ainda mais recursos na CaixaPar. Essa estratégia o banco prefere não comentar – mesmo porque não está prevista na lei sancionada por Lula, mas deve constar do estatuto. Caso dê certo, a Caixa terá à disposição empresas, construtoras e dinheiro, muito dinheiro.