11/06/2010 - 6:00
Ouça um resumo da reportagem “Um CEO sob fogo cruzado”
Cena 1. No final da noite da quinta-feira 10, a Portugal Telecom (PT), que briga com a Telefônica pelo controle da operadora celular brasileira Vivo, emitiu um comunicado aos seus acionistas. Nele, recomendava a eles que não aceitassem a nova oferta de 6,5 bilhões de euros na assembleia que acontece no dia 30 de junho.

Roberto Lima, da Vivo: “A vida está normal. Nosso foco tem sido cuidar da atividade operacional”
O documento, no entanto, era uma peça de defesa contra todas as intimidações dos espanhóis ao longo dessa disputa. Com argumentos jurídicos, o texto sustentava que os portugueses não poderiam ser excluídos da Brasicel, a holding que controla a Vivo, e que os espanhóis não têm condições de bloquear os dividendos da empresa de telefonia.
Cena 2. Poucas horas antes, o presidente da Vivo, Roberto Lima, anuncia a ampliação da cobertura de tecnologia 3G para levar banda larga móvel para 2.832 municípios no Brasil até o final de 2011. Isso significa atender 85% da população do País. Hoje, a empresa de telefonia está presente em 600 cidades com a banda larga móvel.
A Claro, principal concorrente, em pouco mais de 400 municípios. A estratégia responde a uma provocação do governo federal, que alega falta de interesse das empresas de telefonia em investir em áreas remotas. No plano da Vivo, Borá (SP), a menor cidade do Brasil com 837 habitantes, Codó (MA) e Bujari (AC) serão cobertas com a tecnologia. ?A empresa não irá concentrar os investimentos nas áreas que proporcionam mais rapidamente retorno financeiro. Em outras palavras, a lógica está sendo invertida?, afirmou Lima.
O investimento, que foi aprovado duas semanas antes pelo conselho de administração da Vivo, que conta com representantes da Portugal Telecom e da Telefônica, é um sinal da operadora móvel para o mercado de que não está parada esperando o desfecho da briga dos acionistas. ?A vida está normal?, declarou o executivo, na ocasião.

?Nosso envolvimento na disputa não é tão grande. Nosso foco tem sido cuidar da atividade operacional e temos feito o possível para que isso (o conflito societário) não nos disperse.? Essa é a rotina de Lima desde 10 de maio, quando a Telefônica fez a primeira oferta de 5,7 bilhões de euros pelo controle da Vivo e abriu uma disputa ? muitas vezes pouco cordial e de ofensas mútuas ? com a Portugal Telecom. Ser cuidadoso faz parte da regra. As respostas às perguntas sobre o embate entre os dois acionistas são sempre diplomáticas.
?Os portugueses e os espanhóis são pessoas de uma competência muito grande?, declarou ele à DINHEIRO, após o anúncio dos planos com a tecnologia 3G. ?A Portugal Telecom é muito forte na parte de tecnologia e desenvolvimento de produtos?, acrescentou. E logo emendou. ?E a Telefônica tem experiência em negociação de novos fornecedores e compra em grande volume. É o melhor dos dois mundos. Vamos ver como isso vai evoluir. Piorar não vai.?
Quando assumiu a Vivo, em junho de 2005, Lima encontrou uma empresa dividida entre espanhóis e portugueses, que lotearam os cargos do alto escalão da companhia. Hoje, a maioria dos dirigentes é de brasileiros. Há atualmente apenas um português e um espanhol em cargos de direção.
O próprio Lima foi o primeiro brasileiro a assumir a operação da companhia, substituindo o português Francisco Padilha. Em 2006, seu primeiro ano completo à frente da Vivo, o lucro líquido foi de R$ 16,3 milhões. No ano passado, atingiu R$ 858 milhões. A receita líquida da Vivo, em 2009, foi maior do que a da Telefônica no Brasil.
A participação de mercado, que caía lentamente mês a mês, estancou. E, por sete meses consecutivos, a Vivo ganhou mais clientes do que perdeu, consolidando-se na liderança do mercado brasileiro de telefonia celular. É por isso que os espanhóis, na nova oferta feita à PT, deixaram claro que não vão alterar a direção da empresa.
Analistas avaliam que, caso ocorra a aquisição, é a Vivo quem vai comandar a nova operação. Mesmo assim, Lima prefere manter a diplomacia. ?Não estamos sofrendo nenhum impacto das negociações que se passam entre os acionistas porque a intenção é de comprar e não de vender. Criamos um ativo de muito valor.?
