06/05/2009 - 7:00

No final de março, a ElmoNet, estatal holandesa da área de transportes, fez uma encomenda de 500 unidades do carro elétrico Th!nk City à norueguesa Think Global. O objetivo é testar a performance do veículo compacto nas estreitas ruas de Amsterdã e Roterdã. Para viabilizar a entrada em cena desse tipo de transporte, o governo holandês se comprometeu a investir US$ 13 milhões para dotar essas cidades de pontos de recarga, por exemplo. Vinte dias antes, a Think Global havia acertado um acordo semelhante com o governo da Áustria. A compra pode chegar a 100 unidades até o final do ano. O veículo irá compor a frota de serviço das empresas estatais da região de Bregenz. Essas duas transações deverão render cerca de US$ 15 milhões aos cofres da Think Global. Valor modesto para os padrões da indústria automotiva. Mas significativo para uma montadora que conseproguiu a façanha de produzir um carro elétrico em série. Especialmente para quem viveu em uma espécie de tobogã corporativo, desde que foi fundada pela americana Ford Motor Company, em 1991. O projeto foi abandonado em 2003, pouco depois de o governo do Estado da Califórnia ter se rendido ao lobby das montadoras e revogado a lei que obrigava a venda de carros elétricos na região. Em 2006, um grupo de ex-executivos da Think Global assumiu a empresa, disposto a dar um final feliz a essa história. Impulsionado pela adesão de chefes de Estado e grandes investidores à causa verde, eles agora esperam dar o salto derradeiro: a construção de uma fábrica nos Estados Unidos. “Estamos negociando a liberação de recursos junto à agência de fomento e ao Departamento de Energia”, contou à DINHEIRO Richard Canny, presidente da Think Global.

O executivo não revela os valores necessários para a empreitada. Diz apenas que a expectativa é produzir 16 mil unidades no primeiro ano de operação, avançando para um pico de 60 mil unidades em um período relativamente curto, dependendo da demanda do consumidor local. Mais que recursos, o grande desafio da Think parece ser exatamente convencer os possíveis clientes. Isso porque carros compactos, com autonomia e velocidade limitadas, não são bem vistos pelo americano médio, que prefere os potentes e beberrões utilitários esportivos. Joga a favor dos noruegueses, no entanto, a disposição do governo Barack Obama de reduzir a dependência do petróleo, além de uma maior consciência ambiental. Foi graças a essa onda verde que um grupo de investidores, liderados por fundos dedicados a projetos verdes, despejou US$ 100 milhões na empresa no ano passado. os recursos serviram para tirar a companhia da situação de paralisia em que se encontrava desde 2003. além disso, garantiu a retomada das pesquisas que permitiram o lançamento da quinta geração do veículo. desde então, já foram produzidos 350 exemplares do Th!nk City na planta de Aurskog, distante 50 quilômetros da capital Oslo. Eles participaram de eventos do setor, como o Rally de Mônaco e o Salão do Automóvel de Genebra. Também foram apresentados a chefes de governo, como Gordon Brown, da inglaterra, e integrantes da realeza europeia, como o rei Carl Gustaf, da Suécia, além do poderoso sindicato europeu das indústrias do setor elétrico.

O esforço de Canny em angariar simpatias pelo mundo afora se deve ao fato de que um carro desse tipo exige um modelo de negócio bastante específico. a venda depende de incentivos governamentais, como desconto no imposto e financiamento a juro baixo. em londres, por exemplo, seus proprietários são isentos do pedágio urbano. mais que um automóvel, o Th!nk City é comercializado como uma opção de vida sustentável. ironicamente, a tarefa de resgatar a empresa foi confiada a um veterano da velha escola automotiva de detroit (eUa), que atuou os últimos 25 anos na ford. o curriculum de Canny inclui a presidência da divisão américa do Sul da ford, entre 2001 e 2002 período no qual morou o Brasil. Segundo o executivo, o Th!nk leva vantagem em relação aos veículos híbridos tanto no custo de operação quanto no de manutenção. o problema é o preço: US$ 25 mil, cerca de 10% acima do cobrado pelo híbrido Toyota Prius, capaz de rodar com gasolina e eletricidade. “o valor do Th!nk City é alto mas ele se torna competitivo se levarmos em conta que os modelos elétricos têm privilégios, como isenção do pagamento de pedágio urbano, por exemplo”, argumenta. resta saber se isso será suficiente para convencer os consumidores a apostar nessa tecnologia.