27/08/2003 - 7:00

Há um novo oráculo na praça. Com a agenda lotada de convites para palestras em grandes auditórios, conversas reservadas a portas fechadas e aconselhamentos pessoais ao pé do ouvido, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso se transformou, sete meses depois de ter deixado o poder, no mais requisitado ponto de referência para empresários, financistas e executivos à procura de respostas para toda sorte de interrogações. Uma corporação precisa incentivar sua equipe a desenvolver liderança pessoal? Fernando Henrique ensina. Operadores do mercado financeiro necessitam de uma aula sobre a história do FMI? O professor abre seus arquivos. Financiadores de campanhas eleitorais querem saber se o ex-ministro José Serra será candidato a prefeito da maior cidade do País? O antigo chefe responde que não. De todos os lados, todos o procuram para enxergar o futuro com mais nitidez ? e ele próprio é o primeiro interessado a não deixar ninguém no escuro. ?Falar é o que mais gosto de fazer, é a minha vida?, disse o ex-presidente à DINHEIRO na quinta-feira 21, em Campos de Jordão, depois de inaugurar com uma palestra sobre macroeconomia o 1o Congresso Internacional de Derivativos da Bolsa Mercantil & Futuros. Mediante ganhos financeiros jamais vistos no circuito nacional de conferências, ele vai respondendo ao assédio por seu repertório de informações privilegiadas e idéias armazenadas em oito anos de poder com entusiasmo de principiante. ?Tenho contatos aqui e lá fora e sei que posso ajudar as pessoas que precisam tomar decisões, mas confesso que estou surpreso com o volume de convites que tenho recebido. Pensei que minha aposentadoria seria mais tranqüila.?
No passado, a elite brasileira já recorreu a economistas como Eugênio Gudin e Mario Henrique Simonsen para preencher suas carências de gurus econômicos. Mais recentemente, o ex-ministro Delfim Netto exerceu esse papel. Nenhum deles, porém, teve tantos compromissos em seqüência e reuniu tantas condições para obter as quantias auferidas atualmente por FHC. Uma hora de explanação proporciona R$ 100 mil líquidos à sua conta bancária. Outros R$ 50 mil têm de ser gastos pelo contratante para fazer frente a impostos, taxas de agenciamento e despesas de hospedagem e locomoção. Esta semana, quando falará na terça-feira 26 para empresários da construção civil, no Secovi, e, dois dias depois, aos sócios do Instituto de Engenharia, o ex-presidente terá completado 15 palestras remuneradas desde que se lançou à nova atividade, a partir de março, após suas férias em Paris. Os honorários foram estabelecidos pelo próprio palestrante a partir de uma comparação que estava à mão. ?Cobro a metade do Clinton?, diz ele sem rodeios, referindo-se a seu amigo pessoal e ex-presidente dos Estados Unidos, acostumado a receber US$ 100 mil por suas conferências. Entre a vintena de profissionais que trafega pelo circuito nacional de palestras, Fernando Henrique é, de longe, o mais caro. ?O que ele tem condições de receber é muito superior ao que qualquer um de nós pode cobrar?, atesta o também conferencista Stephen Kanitz. ?Se ele administrar bem seus convites, ficará no topo por muito tempo.?
O ex-presidente tem, ainda, um trunfo que nenhum concorrente possui: o mundo o quer. Suas férias de dois meses em Paris, no início do ano, tiveram de ser interrompidas para que ele pudesse fazer duas visitas aos Estados Unidos para falar a audiências formadas por investidores, diplomatas e intelectuais. Numa delas, dividiu o púlpito com Clinton. Em Genebra, falou na sede européia da ONU. Nos últimos meses, esteve duas vezes na Espanha, primeiro no auditório do jornal ABC, diante de jornalistas do continente europeu, e depois para uma platéia de empresários na qual despontou a cabeça coroada do rei Juan Carlos. O Ministério das Relações Exteriores do país mantém em sua sede em Madri um gabinete permanentemente à disposição do ex-presidente. Em 18 de junho, dia de seu aniversário de 73 anos, Fernando Henrique não viu sua família. Estava em Budapeste, na Hungria, diante de alunos e professores da Universidade Central Européia, mantida pela Fundação George Soros. Dali foi para a Sérvia, onde suas análises de política internacional foram acompanhadas pela presidente do país, Natasha Minic. Voltou aos Estados Unidos, pouco mais tarde, para uma conferência na Universidade de Michigan. Para 2004, há convites da China, Austrália, Alemanha, França, Itália, Romênia e México. Até agora.
Agente do ex-presidente, o consultor George Legmann define seu melhor produto numa palavra. ?Trabalho para um fenômeno.? O contrato de trabalho entre eles foi assinado em dezembro, nos últimos dias da era tucana. O escritório americano do agente Harry Walker, que administra as carreiras de medalhões como Henry Kissinger, Shimon Perez e o próprio Bill Clinton tentou conseguir o passe de FHC, mas Legmann lançou mão da antiga condição de editor internacional dos livros escritos pelo ex-presidente para
bater o concorrente. Apoiado nas articulações de seu empresário, o ex-presidente pode ser lido, hoje, em inglês, francês, alemão, espanhol, italiano, sérvio, romeno, tcheco, eslovaco, húngaro e chinês.
Dois de seus subagentes ficam na Europa para aproveitar as oportunidades surgidas pelo prestígio de FHC. O empresário quer
mais e dá os e-mails if.cardoso@uol.com.br e glegmann@uol.com.br para novos contatos. ?A agenda dele tem de ser atualizada
a cada 15 dias porque recebemos uma média de cinco convites a cada semana?, afirma.
Apartamento de 300 metros. Em todos os sentidos, Fernando Henrique está com a vida em ordem. Ao mesmo tempo em
que cultiva hábitos simples, desfruta de uma poderosa estrutura ao seu redor. Na condição de ex-presidente, faz jus a um trio de seguranças e mais cinco auxiliares com salários pagos pelo erário. Dono de um confortável apartamento de 300 metros quadrados em Higienópolis, para onde se mudou no início do ano, circula pela cidade num Omega cinza blindado, mas pode ser visto fazendo tranqüilas caminhadas pelas ruas arborizadas da vizinhança. No almoço, freqüenta o tradicional Clube São Paulo, uma das marcas registradas do bairro, onde a diretoria o convidou para ser sócio honorário. Jantares com amigos como o ex-ministro Pedro Malan costumam ser abertos com uma generosa dose de bom uísque. O café, invariavelmente, é ?quase sem açúcar?. De sua casa, chefia com mão leve o PSDB, recebendo para articulações o presidente nacional da legenda, José Aníbal. No escritório do apartamento que sofreu uma reforma completa por quatro meses, vai escrevendo, com vagar, o livro A Arte da Política. A promessa ao editor era de entrega para o final deste ano, mas o trabalho só estará pronto no começo do próximo. ?Tenho de contar casos verdadeiros da Presidência, senão ninguém vai querer ler?, julga o autor.
Um milhão e meio de reais mais rico este ano, se computados apenas os rendimentos com palestras feitas, Fernando Henrique se prepara para repassar ao fundo Gávea, administrado pelo ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, os mais de R$ 10 milhões que conseguiu arrecadar entre grandes empresários para a instalação do Instituto Fernando Henrique Cardoso. ?Com uma renda mensal de uns R$ 150 mil poderemos funcionar com tranqüilidade por bastante tempo?, imagina o titular. Com R$ 10 milhões para operar, no entanto, Armínio vai surpreender positivamente seu ex-chefe. ?É possível?, diverte-se o ex-presidente. O Instituto vai abrigar sua biblioteca de 10 mil volumes, mais de um milhão de documentos juntados durante seus dois mandatos em Brasília e promoverá seminários e pesquisas. O cargo de Fernando Henrique não será remunerado. ?Segui o modelo de outros presidentes modernos do mundo?, compara. Seu escritório provisório está instalado na Avenida Paulista até que fique pronta a reforma dos mil metros quadrados comprados no centro da cidade para sediar o Instituto FHC. Ali, graças a um contato privilegiado, resolveu o problema de não ter estacionamento no novo prédio: seu vizinho Antônio Ermírio de Moraes cedeu vaga nas garagens do Grupo Votorantim para Fernando Henrique não sofrer com o problema comezinho. O homem está de bem com as grandes empresas. Nos últimos tempos foi ouvido na cervejaria Ambev, na fábrica de softwares SAP, na companhia de medicina de grupo Unimed e na consultoria Tendências. No mês passado o palestrante realizou um prodígio. Convidado por um grupo de 30 investidores americanos a falar sobre a economia brasileira em Chicago, o ex-presidente mandou avisar que não poderia viajar por motivos de agenda. O grupo tomou um avião e veio até São Paulo exclusivamente para saber suas previsões. Nem sempre é fácil chegar perto do brilho do
ex-presidente. A BM&F bancou a conta de seu cachê sozinha,
mas o centro universitário Unisa precisou de quatro patrocinadores para tê-lo como orador semanas atrás. Seus clientes se dizem satisfeitos. ?Com FHC aqui foi mais fácil contar com nomes como Stanley Fischer (ex-diretor gerente do FMI e vice-presidente do Citigroup) e Myron Scholles (economista vencedor do prêmio Nobel)?, calcula o presidente da BMF, Manuel Félix Cintra Neto. Antes da palestra, o ex-presidente falou à portas fechadas para um pequeno grupo de investidores. Depois, foi procurado por Fischer para uma conversa reservada. ?Todos me perguntam se o atual governo
vai manter os compromissos com a economia de mercado e os contratos?, diz Fernando Henrique.
Neste momento, a Sociedade Amigos da Orquestra Sinfônica de São Paulo o quer para patrono. De Frankfurt chegou um convite para ser paraninfo de 400 formandos em economia. O próximo mês será dedicado a aulas na Universidade de Brown, onde será professor visitante pelos próximos cinco anos. O destino, dali, será Washington, onde iniciará pesquisas na Biblioteca do Congresso. Entre um vôo e outro em primeira classe, terá de encontrar tempo para monitorar as atividades do Clube de Madri, do qual é presidente, do Inter American Dialogue, em que é co-chairman, e assessorar o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, no relacionamento da organização com as ONGs de todo o planeta. ?Eu sou uma rede?, define-se Fernando Henrique com seu sorriso fácil. E daquelas bem grandes.
Com sua voz bem modulada, modos afáveis e gestos comedidos FHC desenvolveu uma capacidade de dar mensagens duras sem parecer agressivo. Foi assim nesta entrevista exclusiva à DINHEIRO, em que pisou forte em pontos nevrálgicos do atual governo. Para ele, o que parte de Brasília é uma ?não política? para a maioria dos setores da administração. A respeito dos contatos que têm mantido com o empresariado, diz que a elite está com medo porque o presidente Lula não tem demonstrado capacidade de indicar o rumo para onde está guiando o País. O problema, na ótica do ex-presidente, é que o PT não desenvolveu um programa de governo viável em seus 20 anos na oposição. ?O partido ou foi negativo ou onírico, prometendo milagres.? Ele não perdoa a expressão ?herança maldita?, usada pelos petistas para definir as condições em que receberam o governo de suas mãos. ?Lula poderia se poupar e não usar este tipo de argumento injusto.? Acompanhe:
DINHEIRO ? O sr. tem falado com empresários de todos os setores da economia. Como está o clima?
FERNANDO HENRIQUE ? O pessoal está com medo. Não há sinais claros de retomada do crescimento, o desemprego é grande e o investimento, baixo. Os empresários ainda estão desconfiados sobre se o atual governo será capaz de seguir uma linha coerente. Há muita discussão dentro do PT e a base política do governo não parece sólida. Há uma torcida a favor e um medo que não dê certo.
Como o sr. se posiciona?
Este cenário não é irrealista. Há uma indefinição no centro do poder diante da pergunta: o que este governo quer fazer? Eu sei que o presidente Lula pode dizer ?ah, mas eu estou há apenas sete meses no governo?. Sim, mas estava há vinte na oposição. Afinal, qual é o seu programa de governo? O País precisa ter rumo, mas hoje não sabemos qual é a direção. Isso é que dá incerteza. O governo está nos levando para onde? Primeiro, o próprio governo tem de saber. Segundo, tem de dizer. Mas não tem feito nem uma coisa nem outra. O governo simplesmente não está andando. Está parado.
Em todos os setores?
No geral há uma não-política. Qual é a política para infra-estrutura
ou para as agências de regulação? Onde há política é na parte financeira e na parte externa. E ambas são mais ou menos as
mesmas que eu havia feito.
Como o sr. se sente diante da expressão ?herança maldita? usada pelos chefes do PT?
Obviamente é injusta. O que tem de maldito na minha herança foi acrescido no último ano, quando as pessoas ficaram perplexas e a inflação e o risco Brasil cresceram. Mas eu pergunto: é maldita a agricultura brasileira? É maldita a produção industrial brasileira? É maldita a exportação brasileira? São malditos os programas sociais? Não. Eu acho que o presidente Lula poderia se poupar e não usar este tipo de argumentos. Não são justos.
Como andam as relações entre os senhores?
Nós conversamos depois das eleições, mas a última vez faz
alguns meses, pelo telefone. Ele me convidou para tomar um café, mas eu não fui. Não adianta conversa. O problema não é da oposição ou das pessoas que estão fora do governo. O problema está acontecendo dentro do governo. Tem de ser decidido lá dentro, pelo partido do governo.
O sr. tem mágoas do PT?
Olha, eu gosto do Lula e tenho boas relações pessoais com ele, mas o partido dele sempre me agrediu. Eu nunca agrido politicamente, mas o Tarso Genro, hoje ministro considerado, escreveu artigo pedindo o meu impeachment. Eles começaram a gritar ?Fora, FHC? com três meses de governo. Hoje, qualquer observação que eu faço parece que o mundo vem abaixo. Eu posso até aplaudir, mas só se o presidente Lula conseguir dizer o que é que vai fazer.
De onde vem essa dificuldade?
O PT nos últimos 20 anos não foi capaz de propor algo viável. O problema deles não está nestes sete meses, mas nos 20 anos anteriores. A oposição deles era negativa por um lado e onírica pelo outro. Diziam que ia melhorar para todo mundo, que iria ser tudo ótimo, haveria um milagre. Agora o presidente Lula diz que não há milagre. Eu vivia dizendo isso, mas eles é que ofereceram um milagre nas eleições. Eu não estou na torcida contra, quero que dêem um caminho para todos nós.