19/08/2002 - 7:00
Ao longo das quatro últimas décadas, o sobrenome Diniz foi gravado na memória dos brasileiros como sinônimo de reis do varejo, os donos de uma rede de supermercados de R$ 10 bilhões, o Pão de Açúcar. Agora, um dos herdeiros do maior império comercial brasileiro dá as primeiras pedaladas fora do setor que consagrou a família. João Paulo Diniz, filho de Abílio, o comandante supremo do Pão de Açúcar, está voltando seus olhos, e seus investimentos, justamente para a indústria ? o mesmo setor que vive em permanente embate com os grandes varejistas em busca de melhores preços, prazos e exposição de produtos nas gôndolas. Em parceria com o irmão, o ex-piloto de Fórmula 1 Pedro Paulo, João Paulo, 38 anos, deu a largada na produção do Flying Ice, uma soda alcoólica que compete com a Smirnoff Ice, pioneira nesse mercado. A bebida está sendo produzida na fábrica erguida na cidade de Leme, interior de São Paulo, e disputará um mercado estimado em R$ 70 milhões anuais. Na empreitada, os Diniz são parceiros do empresário Edsá Sampaio.
Os irmãos estão adquirindo 66% do capital da empresa de Sampaio, que, além do Flying Ice, é responsável pela importação do energético australiano Flying Horse. Até o final de 2002, outros quatro lançamentos estão previstos. João Paulo guarda os detalhes a sete chaves. ?Alguns desses novos produtos não serão bebidas?, diz ele. O Flying Ice já está presente em 10 mil pontos de venda no Brasil, inclusive, é claro, nas prateleiras do Pão de Açúcar. João Paulo garante que a bebida só desembarcou nas lojas da família após percorrer o caminho obrigatório para qualquer fornecedor. ?Pagamos até pela introdução do produto nos supermercados?, conta ele.
A concorrência, porém, levou em conta a ligação dos Diniz com o produto. O vendedor do Flying Ice foi posto para correr quando pisou pela primeira vez no Carrefour. Na segunda visita, o tratamento já foi diferente. Hoje, o Flying é encontrado nas prateleiras da rede francesa. ?Como todo o varejo, eles também não gostam da concentração em apenas uma marca, como acontece com o Smirnoff Ice, dono de 80% desse mercado?, explica João Paulo. A indústria é uma novidade para João Paulo, mas a carreira solo de empresário, não. Nos últimos 16 anos, ele ergueu um pequeno grupo de negócios inteiramente independentes do Pão de Açúcar. ?Hoje, 80% de meu tempo é dedicado a esses empreendimentos?, diz ele. Um dos mais recentes é uma parceria com o estilista Marcelo Somer para expandir as vendas da marca Somer, destinada à moda jovem. O nome de João Paulo ainda consta do contrato social de 10 diferentes restaurantes, como Ecco, Parigi, Fasano e Dressing, que se tornaram pontos de badalação da noite paulistana. Em todos eles, João Paulo é acionista minoritário de gente famosa como Luciano Huk e de verdadeiras grifes do setor, a exemplo de Rogério Fasano. Todos seguem um certo tipo de figurino ? decoração moderna assinada por arquitetos famosos, menus baseados na chamada cozinha contemporânea (seja lá o que isso signifique) e freqüência de gente famosa e executivos ?descolados?. Só na rua Amauri, via que abriga algumas das casas mais conhecidas da cidade, cinco restaurantes são de João Paulo.
É nesse endereço que ele toca um de seus projetos preferidos. Meses atrás, adquiriu um antigo imóvel naquela rua, demoliu-o e agora constrói uma praça no meio da quadra, que terá três dos quatro lados cercados pelos edifícios já existentes. ?Há uma praça semelhante em Nova York e resolvi trazer a idéia para cá?, diz João Paulo. O nome provisório será Praça Modelo de São Paulo, mas uma ?eleição? entre os freqüentadores da rua colherá outras sugestões. Na praça será instalado um café. A receita obtida será utilizada na manutenção do local. Possíveis sobras no caixa serão revertidos para uma instituição de caridade.
Esse é um dos ingredientes da receita de João Paulo na hora de fazer negócios. Com exceção dos primeiros restaurantes, ele cada vez tira menos dinheiro do bolso para investir. ?Os próprios negócios devem gerar caixa suficiente para sustentar a expansão?, diz ele. É assim, por exemplo, em um dos empreendimentos mais reluzentes, o grupo Fasano. O movimento dos cinco restaurantes garantiram parte dos R$ 40 milhões necessários para erguer um luxuoso hotel que levará o nome da família. João Paulo possui mais de 40% do grupo e não pensa em aumentar essa fatia. ?Os Fasano devem ser sempre majoritários, pois eles dão identidade ao negócio?, afirma João Paulo. Mesmo nesse capítulo, João Paulo dá contribuição. Os negócios se beneficiam de alguma forma da imagem de esportista e freqüentador da noite adquirida por ele. Triatleta, ele recentemente consumiu seis dias pedalando uma bicicleta entre Fortaleza e São Paulo. Às noites, é presença constante em um de seus restaurantes ? sempre acompanhado por belas mulheres, que também podem ser vistas em capas de revistas ou desfiles de moda. Agora, seu plano é construir a imagem de industrial. ![]()