21/05/2010 - 6:00
“Olá, eu sou Oscar Clarke. Como vai você? Está satisfeito em trabalhar na HP?? Foi assim que, em seu primeiro dia à frente da maior empresa de tecnologia do Brasil, Clarke deixou uma série de reuniões para subir ao 24º andar, onde está localizada a equipe de vendas, para ter o primeiro contato com os funcionários que vai comandar.

Oscar Clarke, no escritório em SP: “Não tenho os vícios da HP nem as amarras do passado”
Foi uma conversa breve, mas olho no olho, como ele definiu à DINHEIRO. O executivo, que ficou seis anos à frente da subsidiária local da Intel, era, naquela situação, um estranho no ninho. Afinal, ele é o primeiro presidente a assumir o posto no Brasil que não fez carreira na HP.
É também dono de um estilo irreverente e brincalhão, bem diferente do sério Mario Anseloni, a quem ele sucede. ?Sou ligado em 380 volts?, diz, em meio a uma gargalhada. Durante a sessão de fotos para esta reportagem, cumprimentou todos os que passavam. ?Já estamos acabando?, desculpava-se.

A preocupação de Clarke com as pessoas faz sentido. Esse forasteiro que assume a HP herda uma empresa bem diferente daquela comandada por seus antecessores. Nos últimos quatro anos, foram compradas 40 companhias mundialmente. Desde 2001, foram gastos US$ 45 bilhões em aquisições. Só a EDS, a principal delas, custou US$ 13,9 bilhões, quase um terço do total investido.
A mais recente foi a Palm, um negócio de US$ 1,2 bilhão, que marca a entrada no segmento de mobilidade. Com isso, o quadro de funcionários mudou radicalmente. No Brasil, a empresa tem oito mil funcionários, sendo seis mil deles da antiga EDS. Nada mais natural, então, do que a HP buscar seus novos líderes no mercado em vez de formá-los internamente. ?Não tenho os vícios da HP, nem as amarras do passado?, afirma.
É com esse espírito que Clarke parte para enfrentar os seus três principais desafios. O primeiro deles é motivar as pessoas. Em pesquisa realizada no segundo semestre de 2009, a companhia teve o mais baixo nível de satisfação já registrado na história da subsidiária brasileira.
Fruto, na visão do executivo, da fusão com a EDS, que atingia o seu auge em outubro do ano passado, e da pressão por atingir metas feitas antes do início da crise. A segunda missão é reforçar a presença da companhia na área de serviços de tecnologia. E a integração com a EDS é a peça fundamental para que isso dê certo.
Por último, Clarke tem a tarefa de levar a empresa ao primeiro lugar em todos os setores em que atua. O primeiro alvo é o mercado de computação pessoal, liderado nos últimos cinco anos pela brasileira Positivo. ?Parabéns para quem teve a oportunidade de desfrutar da liderança em PCs, pois não terá por muito tempo?, declarou, sem nenhum tom de brincadeira.
São desafios que não assustam Clarke, 48 anos, nascido em Belém, no Pará. Ele é engenheiro químico de formação que interrompeu o curso universitário para tirar brevê de piloto e se especializar em acrobacia aérea. Em seu primeiro voo, ao fazer a manobra de parafuso, entrou em uma altitude baixa e perdeu o controle do avião.
Conseguiu retomar a estabilidade a poucos metros do chão. ?Repensei muita coisa da minha vida neste dia?, diz o executivo. Mas não parou de voar em razão do incidente. Ele adora andar de jet ski e de mergulhar. Durante os seis anos no cargo de presidente da Intel, foi religiosamente trabalhar com motocicleta. Na nova função, foi proibido. Agora, tem carro e motorista. ?É a liturgia do cargo.? Mas não esperem formalidades do novo presidente da HP. Ele adora brincar, mas não está para brincadeiras.