08/12/2000 - 8:00
Resgatar a poluição da atmosfera, quem diria, virou um tremendo negócio. O engenheiro agrônomo Pedro Henrique Moura Costa decidiu apostar firme na trilha aberta pela Conferência Mundial sobre Mudanças Climáticas de Kyoto, realizada em 1997, que prevê que os países industrializados terão de reduzir 5% da emissão de dióxido de carbono até 2008. Só que ele optou pela direção oposta do que se poderia esperar. Em vez de vender mais filtros de chaminés e equipamentos com menor consumo de óleo, Costa, um carioca de 37 anos com mestrado na Universidade de Wye, na Inglaterra, resolveu enveredar por projetos de reflorestamento de países emergentes para que a poluição dos industrializados seja compensada. A idéia parece maluca, já que um cidadão de Los Angeles ou Tóquio, a princípio, continuaria a respirar o mesmo ar nocivo. ?Só que o dióxido de carbono é rapidamente espalhado na atmosfera, o que cria o efeito estufa em todo o planeta, com o aumento da temperatura?, explica Costa. Sua companhia EcoSecurities, sediada na Inglaterra e com filiais nos EUA, Brasil, Holanda e Austrália, já tem no portfólio 20 projetos na Malásia, Costa Rica e Brasil, entre outros países. ?Estamos lidando com um mercado de US$ 20 bilhões anuais e que já tem vários concorrentes?, ressalta.
O estratagema que Costa tem usado para convencer grandes empresas como a Peugeot, a AES e a Shell a aceitar suas propostas de preservarem ou reflorestarem áreas nos trópicos se baseia nas brechas do protocolo de Kyoto, defendidas por países como os Estados Unidos. Elas não receberam o aval oficial na Convenção de Clima de Haia, no final de novembro, mas Costa acredita que a tendência de aceitá-las é muito forte.
Em vez de diminuir a poluição de suas fábricas, as empresas poderão pagar pelo plantio de árvores que absorvam o dióxido de carbono. ?Um hectare de eucaliptos é capaz de absorver 100 toneladas de CO2 em sete anos.? Além disso, tem ocorrido um forte movimento para criar um mercado de commodities de venda de poluição. Uma empresa norte-americana com excesso de poluentes, por exemplo, pode comprar os créditos que uma indústria canadense com pouca emissão tenha de sobra. Costa se aliou inclusive à consultoria PriceWaterhouse Coopers e à corretora de valores Cantor Fitzgerald para criar a empresa virtual Co2e, especializada na intermediação das transações. Várias companhias já decidiram aceitar esse negócio, segundo Costa, e as comissões chegam até a 70% dos valores transacionados, que podem ter como parâmetro os impostos que as poluidoras correm o risco de pagar. Alguns países começam a criar uma legislação específica para o assunto. A Inglaterra, a partir de 2001, cobrará US$ 60 por tonelada de dióxido de carbono emitido.
A EcoSecurities, que não divulga seu faturamento, tem avançado bem nesse ramo por um motivo muito simples: em vez dos US$ 250 milhões que os países industrializados teriam de desembolsar por ano para reduzir emissões e entrar dentro dos padrões de Kyoto, podem gastar 90% a menos com projetos florestais. Cerca de 200 empreendimentos do tipo, no valor de US$ 1 bilhão, já foram realizados desde 1991.