20/12/2006 - 8:00

Steinbruch: o estilo centralizador será suficiente para gerir a quarta maior siderúrgica do mundo.
Em 2003, quando os lucros começaram a jorrar na Companhia Siderúrgica Nacional, depois de uma longa seqüência de perdas milionárias, o empresário Benjamin Steinbruch, principal acionista da empresa, recusou os méritos pela recuperação. ?Eu não fiz nada?, dizia ele a seus interlocutores. ?Apenas coloquei em prática aquilo que meu pai sonhou e começou a construir.? Para muitos, era a expressão de uma modéstia inédita em um homem que, segundo os adversários, tinha ?ambição demais e humildade de menos?. Para outros, tratava-se de um tapa com luva de um vencedor que trata com complacência os críticos que duvidavam de sua capacidade de reação. Há, porém, uma terceira hipótese: talvez Steinbruch estivesse apenas manifestando um sentimento íntimo, sobre o qual ele mesmo não tinha plena consciência. Em sua avaliação, a CSN era o projeto concebido por seu pai, Mendel. Fora ele o artífice do consórcio de empresas que arremataram o controle da siderúrgica no leilão de privatização ocorrido em 1993. Coube também a Mendel articular o passo seguinte, a aquisição da Companhia Vale do Rio Doce, em parceria com o Bradesco e fundos de pensão. Em todas esses lances, Benjamin assumiu o papel de um ativo coadjuvante, mas, antes de tudo, um coadjuvante. Portanto, a frase ?eu não fiz nada? revela que Benjamin é, sobretudo, um empresário à procura de sua própria obra.
Essa ambição de deixar sua marca pessoal no mundo dos negócios ajuda a explicar a sensacional disputa em que Steinbruch se envolveu com o indiano Ratan Tata. Em jogo está o controle a anglo-holandesa Corus, nono maior grupo siderúrgico do planeta. A queda-de-braço teve início em outubro, quando a Tata Steel ofereceu US$ 8,5 bilhões pela empresa européia. Semanas depois, a CSN entrou no páreo e colocou US$ 9 bilhões sobre a mesa. Quando o negócio parecia decidido a favor dos brasileiros, na noite de domingo 10, Tata cacifou uma nova proposta, de US$ 9,2 bilhões. Menos de 10 horas depois, a CSN aumentou seu lance para 4,9 bilhões de libras esterlinas (algo em torno de US$ 9,6 bilhões). Era o estilo Steinbruch em ação, somado a uma profunda lógica empresarial. Caso vença a corrida, o empresário brasileiro dará não o maior, mas o mais arrojado passo de uma companhia brasileira rumo à internacionalização. Da união de CSN e Corus, surgirá um colosso de quase US$ 17 bilhões de faturamento nos primeiros nove meses de 2006, com geração de caixa em torno de US$ 2 bilhões. Seu volume de produção somará 24 milhões de toneladas de aço, provocando um salto de proporções continentais da CSN no ranking mundial do setor ? da 49ª. para a quarta colocação.
Há a contrapartida. Com a eventual aquisição, a companhia brasileira passará a carregar uma dívida gigantesca, maior, inclusive, do que seu atual valor de mercado, cerca de US$ 8 bilhões. Os recursos virão de um consórcio de bancos, entre os quais se encontram o Barclay?s, o Goldman Sachs e o UBS, por intermédio de seu recém-adquirido braço brasileiro Pactual. Do caixa da CSN, sairão US$ 800 milhões. A cada novo lance da CSN, os investidores colocavam um enorme ponto de interrogação diante de sua capacidade de honrar o compromisso que está em vias de assumir. Em suas conversas particulares, Steinbruch costuma dizer que tem pelo menos dois anos para equacionar esse endividamento. Nesse período, acredita ele, o mercado global (e a China, em particular) manterá o apetite voraz demonstrado nos últimos cinco anos. ?Depois disso, só com bola de cristal?, afirma. A percepção de analistas, porém, indica que o preço pago pela Corus é alto. Segundo Patrick Conrad, do Santander, a relação entre o valor da companhia se situará em 6,7 vezes sua geração de caixa, índice superior à média de mercado de 4,5 a 6 vezes. Atualmente, continua o especialista do Santander, o endividamento da CSN bate em 3,5 vezes a geração de caixa. ?O mais confortável seria algo abaixo de duas vezes?, afirma ele. Parte do risco será dividido com a própria Corus. ?Boa parte do financiamento estará lastreado nos ativos da siderúrgica anglo-holandesa?, afirma José Marcos Treiger, diretor de relações com investidores da CSN.

Benjamin, com o pai Mendel (ao centro, na foto superior esquerda) e o sócio Jaks Rabinovich: A diversificação do maior grupo têxtil começou com a CSN e pode atingir o auge com a compra da Corus.
A dívida, de qualquer forma, ficarásituada num patamar elevado. Mas não é exatamente uma novidade na trajetória de Steinbruch. Desde a compra da CSN, ele se envolve em negócios que parecem muitos degraus acima de sua capacidade ? e os vaticínios de que não agüentaria o tranco nunca se confirmaram. Esses fantasmas passaram a rondar a carreira do filho de Mendel, desde o momento em que a família decidiu diversificar radicalmente seu portifólio de negócios. Mendel começara a vida como vendedor de roupas e, a partir daí, criou o maior grupo têxtil do País, a Vicunha. Em 1993, deram o passo que os colocaria de vez entre os maiores industriais da Brasil, a compra da CSN. Logo depois, entraram no consórcio que arrematou a Vale do Rio Doce. A excessiva concentração na cadeia de produção do aço incomodou as autoridades brasileiras que obrigaram o descruzamento acionário das duas gigantes. A cada movimento desse tipo, sempre agressivo e ousado, Steinbruch cultivava inimizades com gente grande, em geral, maiores do que ele. Houve bate-bocas públicos e antológicos com Antônio Ermírio de Moraes e diretores do Bradesco. Em outra oportunidade, viu-se envolvido em denúncias contra o governo de Fernando Henrique Cardoso. As constantes polêmicas e o endividamento gerado pelos lances agressivos na compra de ativos alimentavam as dúvidas em relação ao futuro de seus negócios. A imagem de playboy, cultivada durante seu período de solteiro, quando namorou misses e modelos, pouco ajudava. ?Ele sempre viveu no fio da navalha?, diz o consultor Paulo Sérgio Rosa, que o conhece há anos. ?Esse traço é parte de sua estratégia de crescimento.?
Steinbruch sempre deu a volta por cima, silenciando seus críticos. Mas não se livrou da imagem de um empreendedor perigosamente solitário, embora arrojado e, muitas vezes, brilhante. ?A CSN é uma empresa de um homem só?, diz um concorrente. Em alguns momentos, essa auto-suficiência torna-se o principal fator de sucesso da CSN. Poucas companhias têm tanta agilidade quanto a siderúrgica de Volta Redonda. No domingo passado, esse traço manifestou-se em toda sua dimensão. Eram cerca de 10 horas da noite quando os indianos da Tata surpreenderam os ingleses da Corus com uma nova proposta. Steinbruch estava em um hotel de Londres quando soube do inesperado lance. Disparou rumo ao escritório alugado em Picadilly Circus, convocou seus executivos em Londres e no Brasil, ligados em conferências telefônicas. Em poucas horas, a proposta de US$ 9,6 bilhões estava concluída para ser divulgada. Em quarenta minutos, o diretor Treiger organizou uma conferência, em duas rodadas, com 436 analistas. ?Na segunda-feira de manhã, o mercado estava informado?, conta Treiger.
A questão é a seguinte: a centralização, que até agora contribuiu decisivamente para o excelente desempenho da siderúrgica, garantirá o sucesso de uma empresa três vezes maior daqui para a frente? ?Benjamin terá de provar que sua organização possui executivos com autonomia e talento para tocar um projeto muito maior do que o atual?, lembra Conrad, do Banespa. E haverá muito trabalho pela frente. Os custos das siderúrgicas inglesas encontra-se 60% acima do registrado pela CSN, um dos mais baixos do mundo. Para mexer nesse item, os novos controladores, sejam brasileiros, sejam indianos, enfrentarão uma forte oposição de sindicatos e até mesmo de um sentimento nacionalista ? foram esses os elementos que impediram semanas atrás que a CSN assumisse o controle da americana Wheeling Pittisburg. ?As autoridades da Inglaterra e da Holanda acompanharão de perto as iniciativas dos novos donos, sobretudo no que se refere ao enxugamento da mão-de-obra?, afirma um concorrente.
Negociação será uma palavra-chave nesse cenário. A trajetória de Steinbruch revela um empresário sem grande aptidão para conciliações. Ao longo dos últimos anos, desfez as sociedades que mantinha em muitos de seus negócios. Tornou-se controlador único da CSN. Depois, comprou a metade do capital da Vicunha que pertencia à família Rabinovich. Na GalvaSud, uma laminadora de aço, adquiriu os 50% detidos pelos alemães da Thyssen-Krupp após anos de brigas intermitentes. Dentro de casa, também não reteve alguns de seus principais colaboradores, como Maria Sílvia Marques, batizada de A Dama de Aço brasileira, Vasco Dias, atual presidente da Shell, e Marcelo Araújo. Por isso, assim que colocou no ar seu plano de engolir a Corus, Steinbruch contratou uma das mais conhecidas empresas de assessoria de comunicação do Reino Unido, a Maidland. Encontros com membros do gabinete do primeiro ministro Tony Blair e parlamentares ingleses e holandeses foram organizados pela Maidland. Graças a essa ação de lobby, Steinbruch também foi parar nas páginas do Financial Times, a bíblia dos homens de negócios europeus, numa extensa reportagem.
Mas a principal arma de sedução de Steinbruch encontra-se no que ele chama de um ?irretocável encadeamento empresarial?. É o seguinte: a CSN possui uma mina de ferro, a Casa de Pedra. Com alto grau de pureza (cerca de 65%) e baixo custo de produção, o minério extraído dali poderia alimentar as usinas da Corus na Europa, já no ?dia seguinte à aquisição?, como diz o diretor Treiger. A vantagem de preço e qualidade sobre o ferro adquirido atualmente pela Corus geraria uma geração de caixa anual extra de US$ 450 milhões, segundo Treiger. A integração das duas companhias seria ainda beneficiada por um plano de investimentos em andamento na CSN. O primeiro ponto é a expansão de Casa de Pedra, cuja produção de minério saltaria dos atuais 16 milhões de toneladas para 50 milhões até 2011. Nesse mesmo ano, duas novas plantas de placas semi-acabadas praticamente triplicaria a atual produção de 5,6 milhões de toneladas da CSN. Essas placas seriam enviadas para as unidades da Corus na Europa para o beneficiamento final. O escoamento aconteceria pelos portos de Itaguaí e Sepetiba ambos pertencentes à própria empresa de Steinbruch.
O plano de investimentos dará uma nova musculatura à CSN, independentemente do sucesso ou não da investida sobre a Corus. Mas a imagem de uma ?empresa pequena para o tamanho do jogo global?, como dizem os analistas, permanece. Mais uma vez, a conta recai sobre a proverbial auto-suficência de Steinbruch. ?Ele poderia anunciar seus planos de investimento de forma mais estruturada, ganhando a simpatia da opinião pública?, diz um de seus interlocutores freqüentes. ?Mas ele parece não se preocupar com isso.? Com sua ousada proposta para arrebanhar a Corus, porém, Steinbruch conquistou uma projeção inédita no setor e no universo corporativo global. Isso lhe trará dividendos caso o negócio com a Corus não vingue. Afinal, outros potenciais parceiros hoje conhecem muito melhor aquele empresário brasileiro que tentou comprar uma empresa muito maior do que a sua. E de sua parte ele continuará sendo o homem que está à procura de sua própria obra. ![]()