15/05/2002 - 7:00
Aos 46 anos, o advogado-geral da União, Gilmar Mendes, está a um passo de chegar ao topo da carreira e se tornar um dos mais jovens integrantes do Supremo Tribunal Federal. Na semana passada, porém, ele descobriu o alto custo da promoção. Numa situação jamais ocorrida nas sabatinas a que os postulantes ao STF têm de se submeter no Senado, a sessão da Comissão de Constituição e Justiça que aprovaria seu nome foi suspensa depois da apresentação de uma representação feita pelo ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Reginaldo de Castro. ?De qualquer candidato a financiamento de imóveis no SFH se pede certidões negativas na Justiça, por que seria diferente com alguém que pode se tornar membro vitalício da mais alta corte do País??, perguntou o advogado. O tiro foi certeiro. Mendes, no momento, responde na Justiça Federal a duas ações, uma por improbidade administrativa e outra na qual se questiona se sua reputação é ilibada. O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) pediu vistas da documentação e os trabalhos foram suspensos. Nova sessão da comissão está marcada para esta quarta-feira 15.
Na mesma medida em que Mendes ficou furioso com o adiamento, seus adversários comemoraram. Na véspera da sabatina, o advogado Dalmo Dallari, um dos mais respeitados juristas do País, criticou duramente a indicação, pelo presidente Fernando Henrique, do advogado-geral da União para o Supremo. ?É uma ação entre amigos?, disse. Muitos nos meios jurídicos acreditam que, uma vez com a toga de juiz, Mendes jamais votará contra os interesses de Fernando Henrique. O acusado replica. ?Mesmo aqui, dentro do governo, há muita discussão antes de enfrentarmos cada disputa?, lembrou o advogado-geral à DINHEIRO. ?Não votarei automaticamente a favor do governo.? Autor de 16 livros jurídicos, Mendes notabilizou-se nos últimos anos pelo estilo polêmico. Ele já classificou os tribunais de ?manicômio judiciário? e voltou-se contra seus colegas advogados ao acusá-los de alimentar a ?indústria das liminares?. Ele também alega que sua gestão na AGU resultou numa economia de R$ 3 bilhões aos cofres públicos. ?Nossa linha é a seguinte: primeiro tentamos ganhar. Quando não dá, fazemos acordos que saiam barato para o governo?. Ele só não sabia o quanto sairia caro sua nomeação ao STF. ?Quero apenas que sua nomeação seja debatida?, registra Reginaldo de Castro, o homem que adiou o sonho do advogado-geral de virar juiz.