05/03/2010 - 1:00
Ouça um resumo da reportagem sobre o dilema do novo estádio que será construído no Recife para abrigar os jogos da Copa do Mundo
Nos anos 60 e 70 do século passado, o governo brasileiro construiu mais de uma dezena de estádios no País. Eram projetos faraônicos, em locais com pouca tradição no futebol e viabilizados exclusivamente com dinheiro público. As obras tinham essencialmente um viés político e ninguém estava preocupado se eram realmente necessárias.

Arena Capanema: novo estádio pode ficar sem futebol após a Copa do Mundo
O tempo passou e muitos desses estádios vivem às moscas até hoje. São verdadeiros micos, que consomem milhões de reais todos os anos apenas em manutenção. Agora, 50 anos depois, a história pode se repetir. Uma das principais bandeiras da candidatura pernambucana à sede da Copa do Mundo de 2014, a Arena Capibaribe, como vem sendo chamado o novo estádio do Recife, pode se transformar no mais novo elefante branco brasileiro.
Com orçamento estimado em R$ 470 milhões, a Arena corre o risco de ficar sem futebol após o Mundial. Neste caso, o problema não será falta de público. Pernambuco conta com três times de massa ? Náutico, Sport e Santa Cruz ?, mas nenhum deles está interessado no projeto. ?Já temos três estádios particulares no Recife?, afirma José Augusto de Paula, diretor-presidente da comissão patrimonial do Santa Cruz.
?A Arena não é interessante para ninguém. Pela proposta apresentada, os clubes teriam que abandonar seus estádios e jogar as principais partidas no novo local. Sem a receita desses jogos, não teremos como manter nossos estádios, que ficarão sem utilidade?, continua o dirigente. Paulo Wanderley, vice-presidente do Náutico, vai na mesma linha: ?Precisamos saber quais serão os benefícios para o clube. Desta forma, não é viável?, diz.

Nome: Arruda Dono: Santa Cruz Capacidade: 66 mil torcedores Problema: não está adequado ao estatuto do torcedor
A ideia do governo pernambucano é construir uma arena multiuso com capacidade para 40 mil espectadores no sistema de parceria público-privada (PPP), em que o parceiro teria direito a explorar o complexo por 30 anos. Após este período, o controle seria repassado ao Estado. Os envelopes com as propostas serão abertos no dia 22 e, se tudo correr bem, o contrato pode ser assinado em até 60 dias.

Nome: Aflitos Dono: Náutico Capacidade: 20 mil torcedores Problema: é pequeno demais para os jogos da Copa
Sem interesse dos grandes clubes, o projeto pode se tornar inviável. Nada que abale a confiança do Comitê Pernambuco na Copa 2014. ?Se ninguém aparecer com uma proposta para a PPP, o governo construirá a Arena mesmo assim, mas como uma obra pública?, diz Ricardo Leitão, chefe da Casa Civil pernambucana e coordenador do projeto. ?Depois veremos quem vai gerenciar.? Segundo Leitão, o novo estádio é fundamental para garantir o Recife entre as 12 sedes do Mundial. ?Se não tiver a Arena, não tem Copa do Mundo em Pernambuco?, afirma.

Nome: Ilha do Retiro Dono: Sport Capacidade: 35 mil torcedores Problema: laudos apontam danos estruturais
Atualmente, Pernambuco não conta com nenhum representante no grupo de elite do Campeonato Brasileiro de Futebol. Sport e Náutico estão na segunda divisão, enquanto o tradicional Santa Cruz sofre na quarta divisão. Sem os recursos provenientes de seus estádios, a situação pode ficar ainda mais complicada. ?As finanças do Sport teriam um abalo significativo.
Não temos como abrir mão das receitas provenientes da Ilha do Retiro?, afirma Eduardo Carvalho, vice-presidente jurídico do Sport. ?O mais viável seria adaptar um dos estádios já existentes no Recife para a Copa. Com a metade dos recursos destinados à Arena, daria para reformar os três estádios?, completa José Augusto de Paula, do Santa Cruz.
