Muitas vezes, advogados acreditam que a vida limita-se aos tribunais. Mas, quando dois profissionais da área, Sérgio Bellangero e Ideli Silva, sócios de uma banca especializada em direito empresarial, se livraram desse conceito, transformaram o que seria uma desgastante batalha judicial em um acordo favorável a todas as partes. O negócio envolveu pelo menos duas empresas-símbolo em seus setores de atuação: a Estrela, a mais tradicional fabricante de brinquedos do País, e o Albert Einstein, considerado centro de excelência em medicina hospitalar. O que uniu duas companhias tão diferentes foi um casarão avaliado em R$ 20 milhões, localizado na av. República do Líbano, ponto nobre da cidade de São Paulo. Ali, durante sete anos, funcionou a Casa dos Sonhos, um imenso show room e museu da Estrela. Era um ponto de parada obrigatória para a criançada da capital paulista.

 

O primeiro contrato de locação venceu em dezembro de 2004 e foi renovado por mais cinco anos entre a Estrela e o proprietário, um grande grupo multinacional cujo nome Bellangero não revela. A partir daí começaram os problemas. Mergulhada em dificuldades financeiras há alguns anos, a Estrela não conseguia honrar os pagamentos do aluguel e do IPTU do imóvel. Seis meses depois, Bellangero e Ideli foram chamados para cuidar do assunto. Um ano depois, a Justiça expedia um mandado de despejo contra a Estrela. O prazo para desocupação era de 15 dias. ?Mas provavelmente eles não conseguiriam sair antes do final do ano?, diz Bellangero. Haveria ainda um segundo round nessa novela: a cobrança judicial dos aluguéis e impostos atrasados. Em valores de hoje, a conta atingiria R$ 2 milhões.

Foi quando surgiu a oportunidade de um outro tipo de acerto, longe dos tribunais. Em conversa com um amigo, Bellangero soube que o Einstein planejava abrir um posto avançado na região sul de São Paulo. A avenida República do Líbano se encaixava com perfeição nos planos do hospital. Próxima de bairros de classe média alta, justamente o público atendido pelo Einstein, a via tornou-se um corredor de antigas mansões ocupadas hoje por vários laboratórios e clínicas médicas. Ao mesmo tempo em que Bellangero conversava com executivos do hospital, Tilkian o procurou com uma proposta e quitação da dívida, desde que houvesse um desconto, é óbvio. Em troca, Tilkian apresentaria um potencial inquilino para o imóvel. O nome desse inquilino? O Einstein.

Depois de alguns meses de negociação, o acordo estava fechado. A Estrela venderia para o Einstein diversas benfeitorias que havia patrocinado no casarão, como um auditório e o sistema central de ar condicionado. O dinheiro arrecadado com a venda, algo em torno de R$ 300 mil, iria direto para o proprietário. Outra parte do pagamento viria na forma de créditos de IPTU que a Estrela possuía em sua tesouraria, no valor de R$ 700 mil. O dono do imóvel também ganharia um contrato de aluguel de dez anos, prorrogável por outro tanto, com um inquilino de prestígio e risco de inadimplência próximo do zero. Mensalmente embolsará cerca de R$ 90 mil. O Einstein, por sua vez, fincará sua bandeira num ponto privilegiado. Ali, ele instalará um laboratório de análises e uma unidade para atendimentos de casos mais simples. Isso fará parte de um plano do hospital que inclui a construção de um novo prédio em seu endereço original, no Morumbi e uma outra unidade em Higienópolis, bairro de classe média alta de São Paulo. Para Bellangero e Ideli, o acordo significa um posicionamento de mercado. ?Há 200 mil advogados inscritos na OAB de São Paulo?, diz ele. ?É muita concorrência. Nosso diferencial é oferecer não apenas assistência jurídica, mas soluções mais amplas.?