Existe nas entranhas da Igreja Católica um influente economista-chefe de batina, estola e paróquia, cuja divina missão terrena é incomodar. ?O pensamento único da globalização tem de ser combatido?, diz o padre diocesano Virgílio Uchôa, de 63 anos. ?Eu sou uma pedra no sapato do conservadorismo?. Poliglota, formado em Teologia e Filosofia pela Universidade do Vaticano, ele produz disputadas avaliações econômicas mensais, batizadas simplesmente ?Análise de Conjuntura?. Seu conteúdo, porém, é sofisticado. ?A alta do preço do petróleo começa a desconcertar os planos dos idealizadores do crescimento ilimitado e perpetuado pela volatilidade do capital financeiro globalizado. A febre de consumo mundial pode se abalar?, professa a de setembro em suas primeiras linhas. Feitas religiosamente todos os meses nos últimos três anos, difundidas pela Internet, fax, correio ou de mão em mão por centenas de cléricos e leigos, as análises ajudaram a motivar a Igreja brasileira para gestos como o plebiscito nacional sobre a dívida externa e a aproximação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil ao Movimento dos Sem-Terra. Os dois fatos, sacramentados nas últimas semanas, tiveram o dom de ressuscitar a instituição para a luz da cena macroeconômica. Uchôa, afinal, sabe onde o galo canta. Nos últimos 32 anos, ele foi assessor da CNBB para assuntos de economia, política e organização. Nunca administrou o caixa da Igreja, mas seus conselhos sempre foram ouvidos pelos chefes. ?Para a Igreja, ter este tipo de intelectual orgânico é fundamental?, assinala o professor Jorge Cláudio Ribeiro, da cadeira de Introdução ao Pensamento Teológico da PUC de São Paulo. ?Ao entrar numa seara de assuntos terrenos, a instituição tem de saber sobre o que está falando.?

Em maio, de tanto apontar em seus textos veredas radicais para o rebanho católico, Uchôa viu-se crucificado por um complô de bispos conservadores que repercutiu no Vaticano. Correntes alinhadas ao cardeal dom Eugênio Salles, do Rio de Janeiro, e ao bispo Amaury Castanho, de Jundiaí, se formaram para transmitir ao presidente da CNBB, dom Jayme Chemelo, desconforto com o fato de idéias heterodoxas serem associadas ao nome da entidade. Sob pressão, ele renunciou à sua histórica posição na cúpula do clero brasileiro, amealhou mais de uma centena de mensagens de solidariedade e, mesmo excomungado da máquina, não parou de produzir os diabólicos documentos. A Comissão Brasileira de Justiça e Paz imediatamente emprestou apoio logístico. Os jesuítas do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Social, de Brasília, ofereceram-se para ampliar as pesquisas. ?Alguns querem a Igreja presa à sacristia, mas aceitar isso é incoerente aos meus 40 anos como padre?, diz Uchôa. Ele não se descuida. Em sua paróquia, na periferia oeste de Brasília, mantém abertas três igrejas, reza missas e coordena pessoalmente as finanças e ações sociais.

Quando desce do altar para vestir o manto de oráculo econômico, este mineiro que é admirador de São José e São Francisco de Assis recorre a bíblias capitalistas. Todo santo dia, depois de ler os principais jornais brasileiros, costuma se debruçar sobre o britânico Financial Times. Pela Internet, fisga notícias no americano The New York Times e no espanhol El Pais. A linha de pensamento é extraída no francês Le Monde Diplomatique. Com os jesuítas do Ibrades, o padre agregou mais massa crítica ao seu disputado produto. Em Goiânia, o Conselho Nacional dos Leigos faz questão de imprimir e distribuir por conta própria 5 mil exemplares de cada análise de conjuntura. Hoje, Uchôa coordena uma equipe de 16 pesquisadores, a maioria padres, como o belga Thierry Linard e o francês Bernard Lestienne. ?O enfoque do trabalho do padre Virgílio mostra sempre o ser humano como base da economia?, diz Lestienne. Pela análise de conjuntura de setembro, que acaba de iniciar sua discreta porém eficiente circulação, é fácil perceber que o time deles não peca por omissão. ?Gigante regional e mundial, o Brasil dá a impressão de querer se integrar à economia mundial de maneira subordinada?. O documento de dez páginas contém notas de rodapé sobre 30 fontes de informação diferentes, entre notícias, artigos e pesquisas. A edição sobre os fatos de outubro vai circular no início de novembro. Neste momento, o padre Uchôa acerta com a editora Loyola a publicação em livro de todas as análises conjunturais assinadas por ele nos últimos três anos.

?Essas análises são bastante plausíveis, feitas por um grupo conhecido e engajado, e servem para orientar o trabalho pastoral?, atesta um dos maiores ícones da ala progressista da Igreja brasileira, o bispo emérito de Goiás e presidente da Comissão Pastoral da Terra Dom Tomás Balduíno, de 77 anos. ?O padre Virgílio é da geração do Concílio Vaticano Segundo, da Teologia da Libertação e da Igreja Latino-Americana. Um homem que iniciou e articulou muita coisa nova?. Está entre seus planos, agora, monitorar um novo plebiscito que parte da Igreja decidiu pôr em marcha. Depois de questionar a dívida com ?sucesso?, num movimento que alavancou seis milhões de adesões, a instituição quer perguntar à população se deve haver limitação para o tamanho das propriedades rurais em até 35 módulos fiscais, ou 2,8 mil hectares. ?Na lógica dos plebiscitos, que deverão ser assumidos por parlamentares no Congresso, para se tornarem emendas constitucionais, a Igreja pressiona o governo a avançar no campo social?, calcula Uchôa, o padre que não quer se calar.

O pagador de promessas

Ag. O Globo

CARDEAIS: todos pelo social
O governo resolveu pagar promessas na área social. Na última terça-feira, no Rio, o primeiro escalão da área econômica do governo esteve no BNDES para o lançamento do Plano Estratégico 2000-2005 do banco. Com direito a discurso do presidente FHC, que cumpriu penitência ao garantir que, agora, vai ?espichar? o S do social da sigla e mudar a fama de um banco voltado para o financiamento do grande capital. O BNDES vai atender a raia miúda. Os ministros Pedro Malan, da Fazenda, Alcides Tápias, do Desenvolvimento, Pratini de Moraes, da Agricultura, e o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, estavam na fila do gargarejo.

Comparando o orçamento de 99 com o projetado para 2005, o desembolso destinado a pequenas e médias empresas vai passar de R$ 800 milhões para cerca de R$ 5 bilhões. Para 2001, a previsão é investir R$ 1,5 bilhão no ?s?. O banco pretende também aumentar de R$ 300 milhões para R$ 3,5 bilhões a destinação de verbas para infra-estrutura, e de R$ 3,3 bilhões para R$ 6,6 bilhões as verbas de Ação Regional. ?Temos de olhar tudo o que está ligado a melhoria de vida da população do País. Isso envolve investimento em saneamento, saúde, educação e transporte urbano?, discursou o presidente do BNDES, Francisco Gros.