24/09/2003 - 7:00
Nos últimos dez anos, o Brasil abriu sua economia. As empresas desembolsaram bilhões de dólares em fábricas modernas e importaram novas tecnologias. Assim, as prateleiras de lojas e supermercados do País teriam tudo para expor os mais avançados produtos do mundo, certo? Não necessariamente. De pouco adianta a fartura na oferta se não há quem a compre. Com um poder aquisitivo engessado pela falta de crescimento da economia, os brasileiros continuam preferindo produtos de uma geração anterior e, portanto, mais baratos. ?Estamos sempre um passo atrás?, afirma Marcelo Natalini, diretor de marketing da Pirelli Pneus. Natalini tem um exemplo dentro de casa. No Brasil, os modelos radiais, mais modernos do que os chamados diagonais, representam apenas 60% das vendas de pneus para caminhões. Na Europa esse índice supera 95%. O principal motivo é o preço: os radiais são 20% a 25% mais caros do que os diagonais. Nem mesmo o rendimento 30% a 50% maior convence motoristas e transportadoras a mudarem. ?As péssimas condições das estradas brasileiras ajudam na sobrevivência dos pneus tradicionais?, diz Natalini. ?As possibilidades de recuperá-los se forem danificados são maiores.?
Como no caso da Pirelli, produtos mais antigos podem ganhar sobrevida graças à ajuda de hábitos tipicamente brasileiros. ?Temos uma cultura de resistência às novidades?, afirma Silvia Magalhães, diretora da consultoria Roland Berger. ?A abertura econômica do País ainda é recente.? Esse traço afeta diretamente o mercado de lâmpadas, por exemplo. Aqui ainda predominam os modelos incandescentes cristal (aquelas bojudinhas transparentes). Elas são responsáveis por 60% das vendas da GE, uma das maiores fabricantes do País. Nos países europeus e nos Estados Unidos, a preferência recai sobre as incandescentes leitosas, aquelas com vidro branco, cuja luz é mais suave e o custo, 20% maior. ?O primeiro olhar é para o preço?, diz Jayme Salomão, diretor comercial da GE. ?Algumas vezes, o barato sai caro, pois o uso de determinado modelo não é o adequado.? A GE montou equipes de monitores cuja função é ?ensinar? os consumidores sobre a aplicação correta da iluminação. Os cursos para arquitetos e decoradores também foram intensificados.
Outra saída para as empresas é o que o consultor Sérgio Oliveira, da A.T.Kearny, chama de tropicalização das multinacionais. ?Ou seja, elas adequam suas linhas de produtos ao gosto do brasileiro?, afirma ele. Isso explica, em parte, a longa vida do Fiat Uno. Lançado em 1984, ainda hoje 100 mil unidades do automóvel saem das linhas de montagem da montadora italiana. É o único país onde ele é produzido. Há um bom motivo para o sucesso nas vendas. O Uno é o carro mais barato do mundo. Sua versão básica custa o equivalente a US$ 5 mil.
Existe no caso do Uno o efeito da alta do dólar nos últimos anos. Diversas empresas decidiram pela produção local desde que a desvalorização do real criou uma barreira para a importação. Observe o caso da Kodak. As câmeras produzidas na fábrica da empresa na China eram levadas até o México, embaladas e só então vinham para o Brasil. Isso encarecia o produto. Hoje elas vêm direto da China para a fábrica de São José dos Campos (SP). Ali são montadas. O resultado é uma queda no preço final. Em algum momento, a mesma
fórmula será utilizada para as câmeras digitais. No Brasil existem
21 milhões de câmeras e menos de 1% são digitais, enquanto
nos EUA essa participação atinge 21%. ?Creio que as câmeras
digitais não vão substituir as manuais no curto prazo?, diz Walquiria Dias, diretora da Kodak.