Os ventos da compra do JP Morgan pelo Chase Manhattan, um negócio de US$ 33 bilhões fechado no início de setembro, já sopram em terras tropicais. Aqui, a criação do JP Morgan Chase & Co., como o novo banco será chamado, não consistirá apenas da união das 588 gordas contas do Chase com os 12 exclusivíssimos correntistas do Morgan. Um pacote para acomodar o comando das duas instituições deverá ser divulgado nas próximas semanas. O comprador, Chase, quer manter o ?crême de la crême? dos quadros do banco de investimento. Mas vários executivos da casa do lendário John Pierpont Morgan parecem não estar convencidos de que ficar é a melhor alternativa. Nas reuniões, até agora, o que transpareceu é que deverá haver muitos choques culturais até que se complete a fusão.

 

As linhas gerais das mudanças já estão definidas. Jair Ribeiro da Silva, que era o diretor-superintendente do Chase, foi promovido e vai assumir um cargo de chefia para a nova instituição na América Latina. Ele será substituído por duas pessoas, em regime de co-gestão: Luiz Chrysostomo de Oliveira, diretor do Chase no Rio, e Octávio Castello Branco, que era o diretor-geral do Morgan no Brasil. Ana Carolina Aidar, que comandava o Chase Capital Partners no País, saiu do banco. Sabe-se que será substituída por alguém da própria casa, mas ainda não houve consenso sobre o nome. Ela foi cuidar do fundo de private equity do HSBC. A vice-presidente do Morgan, Gabriela Icaza, uma das mulheres mais bem pagas do mercado financeiro, é outra das pessoas que devem deixar a instituição. Ela era a única razão para que a instituição mantivesse um escritório no Rio de Janeiro. O JP Morgan Chase já a convidou para ficar, mas quer que ela se mude para São Paulo. Gabriela já declarou a amigos que não deixa o Rio por motivo nenhum ? prefere trocar de emprego.

Na fase de transição, os cinco principais executivos do Morgan estão sendo chamados, um a um, para reuniões semanais com o presidente do JP Morgan Chase no Brasil, Patrick Morin, na sede do Chase, no Brooklin. É ele que centraliza todo o processo de fusão. Nesses encontros, vem cobrando informações sobre as operações do Morgan no Brasil. Pede relatos sobre tudo, desde detalhes das operações que estão em andamento até informações gerais sobre o dia-a-dia do banco. Também pergunta a opinião de seus interlocutores sobre a situação das empresas brasileiras e tendências em geral para a macroeconomia. O que ficou claro nesses encontros, até agora, é que a cultura do Chase é muito diferente do estilo Morgan de ser. Embora os banqueiros do Morgan sejam conhecidos como aristocratas arrogantes, a informalidade sempre reinou nos quatro andares que o banco ocupa na avenida Brigadeiro Faria Lima. Apenas quatro níveis hierárquicos separavam o operador de mesa do diretor-geral. As reuniões do comitê, que discutia questões estratégicas e era composto pelos cinco vice-presidentes, eram quase sempre democráticas. Ou seja: um homem, um voto. ?Todo mundo é estimulado a dizer o que pensa, sem meios-termos. Discutimos e votamos?, conta um ex-diretor do banco. A cultura do Chase é diferente. Há mais níveis hierárquicos. Eles são respeitados. ?As pessoas precisam medir muito bem as palavras?, conta um executivo do banco. ?São duas culturas muito diferentes, mas o Chase já sobreviveu a várias fusões, tem know-how na área?, raciocina David Ivy, headhunter da Korn-Ferry International. Mudanças no corpo executivo do JP Morgan Chase serão definidas rapidamente, porque o Chase acha que períodos de transição são angustiantes para todos. Há rumores de que o comprador já preparou o programa de demissão voluntária dos funcionários que quiserem sair do Morgan. Mas essa não é a preocupação dos executivos de lá. Muitos não saíram porque estão prestes a receber os benefícios de longo prazo a que têm direito, as chamadas stock options. O pacote, que venceria em alguns anos, será pago em dinheiro, em janeiro. Só por isso não houve deserções. ?Com o dinheiro na mão, vão procurar emprego?, diz um consultor. ?Ofertas não vão faltar.?