05/12/2007 - 8:00
Na casa do empresário Álvaro de Souza Barros, há um enorme painel pintado pelo artista plástico Carlos Araújo. Chama-se A Consagração da Justiça e mostra a figura clássica da Justiça sem as vendas nos olhos e cercada por dois personagens. “É simbólico de minha situação”, diz Álvaro, diante da pintura. Ele se refere ao embate jurídico que trava com seu próprio irmão, Marcos, devido à dissolução da sociedade que mantinham na Souza Barros, a mais antiga corretora de valores em atividade no País. A disputa se arrasta desde 2003, e ganhou um capítulo extra com o IPO da BM&F. Marcos colocou à venda nove milhões de ações da bolsa, equivalente a 3% de todo o lote a ser comercializado. Ao preço de lançamento, cerca de R$ 20 o papel, o montante a ser arrecadado por Marcos bateria em R$ 180 milhões. “Desse total, 30% me pertence, pois essa era minha fatia na sociedade”, afirma Álvaro, em entrevista à DINHEIRO. Marcos rebate. “Ele quer participar de uma operação feita anos depois de sua saída”, diz ele à DINHEIRO.
PERFIL DA CORRETORA
FUNDAÇÃO
1928
CONTROLE
Marcos de Souza Barros (70%) e Álvaro de Souza Barros (30%)
PATRIMÔNIO
R$ 23 milhões
QUANTIDADE DE AÇÕES NA BM&F
9 milhões
VALOR ARRECADADO NO IPO
R$ 180 milhões
Mais uma vez, a discordância foi parar nos tribunais. Álvaro conseguiu, num primeiro momento, o bloqueio do dinheiro que seria obtido com a venda das ações. Marcos recorreu e a Justiça liberou 70% do valor e reteve o restante até que o mérito seja julgado. Até a noite da quinta- feira 29, esse quadro não havia se alterado. Essa dinheirama, afirma Álvaro, é apenas a ponta do iceberg na disputa entre os dois irmãos. “Tenho muito mais a receber”, afirma ele. Em suas contas, 30% do patrimônio contábil da empresa, calculado em cerca de R$ 23 milhões, lhe pertence. Além disso, haveria os chamados ativos intangíveis, como a marca, por exemplo. A briga começou em 2002, quando Marcos decidiu vender seis dos 12 títulos patrimoniais da Bovespa com deságio, um valor de R$ 2,6 milhões. “Não havia necessidade disso”, afirma Álvaro. “Estávamos em boa situação e não precisávamos de dinheiro. Meu irmão também não seguiu o trâmite legal para vender esses títulos.”
Logo depois, durante uma assembléia, Marcos, dono de 70% do capital, não permitiu que Álvaro, presidente há 19 anos, fosse eleito para mais um mandato. “Ele me alijou da corretora”, queixa-se. “Eu era dono de 70% do negócio e tinha direito de eleger quem eu quisesse”, responde Marcos. Álvaro ficou à espera de um acordo que nunca veio, segundo diz. “Só me restou uma saída”, afirma ele. “Ir à Justiça pedir a dissolução da sociedade e receber o que me era de direito.” Marcos não concorda. “O estatuto da corretora estabelece formas de saída da sociedade. O Álvaro nunca quis aceitar o que o estatuto determina.” Álvaro ganhou em primeira instância. Marcos recorreu e ainda não há uma sentença definitiva por parte da Justiça.
Por trás da briga estaria uma proposta de Álvaro, quando ainda ocupava a presidência, de profissionalizar a gestão da companhia. Marcos teria considerado a sugestão como uma manobra para evitar que seu filho assumisse o comando da Souza Barros. “Hoje todas as empresas do setor seguiram esse caminho”, afirma Álvaro. E a Souza Barros foi parar na Justiça.