O que você faria se o seu corretor lhe oferecesse ações de uma empresa que, na prática, não existe há mais de uma década e apresentou um prejuízo de quase R$ 32 milhões no ano passado? Com certeza recuaria da indicação, não é mesmo? E se ele justificasse que, num prazo de apenas 12 meses, os papéis tiveram um retorno de 521%?

Pois é isso o que está acontecendo com as ações da Telebrás. A estatal despertou uma onda de especulações no mercado, mas a Comissão de Valores Mobiliários ainda não tomou nenhuma providência. A procura está relacionada a comentários que não param de sair do Ministério das Comunicações sobre o uso da estrutura da Telebrás para levar, em até três anos, a banda larga a quase todo o território nacional. Para isso, seria investido algo entre R$ 2,5 bilhões e R$ 3 bilhões pelo governo.

Hoje, quase nenhum analista de investimento acompanha esses papéis. Para o gerente de análise do Modal Asset Management, Eduardo Roche, apostar nestas ações é “comprar no escuro”. “Nem a Telebrás e muito menos suas ações teriam razão de existir”, avalia Roche.

Holding do antigo monopólio estatal da telefonia, a Telebrás deveria ter sido extinta dois anos depois da privatização. Contudo, existe até hoje como fornecedora de mão de obra das ex-estatais para a Agência Nacional de Telecomunicações, a Anatel.

Outros analistas, que preferem manter o anonimato, observam que a promessa de revitalizar a Telebrás depende, antes de tudo, da dissolução de pendências da Telebrás na Justiça. “Isso levaria uma eternidade”, resumiu o analista de uma corretora.

A Telebrás é ré em 825 ações judiciais nas áreas cível, trabalhista e tributária, perante diversos tribunais, conforme documentos disponíveis no site da Comissão de Valores Mobiliários. Técnicos da CVM, inclusive, estão monitorando a oscilação no preço das ações. Há um ano, a preferencial era cotada a R$ 0,14.

Na quinta-feira 5, fechou em R$ 0,87. No começo do mês passado, o presidente e diretor de relações com investidores da Telebrás, Jorge Motta e Silva, chegou a pedir à Bovespa que suspendesse as negociações dos papéis justamente pela montanha-russa em que se transformaram as negociações envolvendo a empresa.

Pedido negado, a CVM diz ter colocado uma lupa sobre a estatal. Mas até agora não foram identificados corretores e investidores que adquiriram posições relevantes do papel, quando os primeiros boatos começaram a ser ventilados nos corredores da Esplanada dos Ministérios.