A ADP É UMA DAS MAIORES PROCESSADORAS de folhas de pagamento do mundo. No Brasil, trabalha para Le lis Blanc, Daslu e Xerox. São mais de três mil clientes por aqui. Até dois anos atrás, essa mesma ADP não rodava a sua própria folha de pagamento. Estranho? Quando o atual presidente César Marinho chegou à companhia em 2004, após oitos anos de IBM, ele também achou meio sem sentido. Logo de cara, decidiu ficar calado. E foi tentando entender que razões poderiam explicar não só o contrasenso, como os fracos resultados que o grupo registrava desde 2000. Marinho não entendia nada de folha ou de recursos humanos na época ? chegou até a fazer um MBA em RH de um ano e meio, todos os sábados, para conhecer melhor o assunto. Mas começou a achar que era hora de dar uma chacoalhada na empresa. A estratégia principal que definia a forma como a ADP trabalhava precisava mudar. ?Nós operávamos como uma espécie de alfaiate aqui dentro. Cada cliente precisava de um produto muito específico, adequado à sua exata medida. Isso só gerava custos e nem sempre satisfação?, diz.

Saiu o alfaiate e entrou o prêt-à-porter, diz o executivo ? que segue fielmente a tradução da palavra, ou seja, grosso modo basta pegar (pagar) e levar. Sem a customização dos serviços, a companhia reduziu despesas, passou a depender de menos empregados para fazer o mesmo trabalho e resolveu o paradoxo de ser uma empresa que processa mais de 500 mil folhas de pagamento ? menos a sua. ?Antes, nossa folha exigia um sistema de processamento específico. Agora não precisa mais?, diz ele. Em parte, a medida fez com que a companhia voltasse às velhas origens. Em 1949, um jovem contador chamado Henry Taub criou um serviço capaz de processar a folha de qualquer empresa. No primeiro ano de atividade, a empresa de bairro tinha seis clientes e lucrava US$ 2 mil. O crescimento do grupo (com US$ 9 bilhões em vendas e 600 mil clientes no mundo) forçou reestruturações dentro e fora da matriz nos últimos anos. Entre as mudanças comandadas no Brasil por Marinho, a que lhe rendeu mais noites maldormidas foi a troca da diretoria. Sete dos dez diretores foram demitidos nos últimos dois anos. Alguns departamentos foram extintos ou terceirizados, como o de tecnologia da informação e o de compra de produtos de escritório. Os custos fixos caíram 30% desde que Marinho entrou na empresa, em 2004. Hoje, todos os computadores da empresa são alugados. Até o que fica na mesa do presidente. ?Isso tudo aqui não é nosso e nem pode ser. Nada aqui é estratégico?, diz ele, ao apontar para a sala onde trabalha.

PERFIL DA ADP

Número de clientes é de três mil e equivale a sete vezes o número de empresas de capital aberto no Brasil

Número de folhas processadas soma 528 mil, ou dez vezes o número de folhas da Petrobras

No mundo, atende 600 mil clientes, número muito superior ao total de 3,5 mil grandes indústrias brasileiras*

A receita global atinge US$ 9 bilhões. O Brasil é o maior mercado do grupo da América do Sul

Mas o que Marinho chama de ?a inteligência da empresa? não foi mexida. ?Somos nós que executamos a folha. Precisamos de um sistema que não caia, que seja de fácil uso pelo cliente, que possa adicionar ou retirar pessoas rapidamente.?, diz. De julho a setembro (primeiro trimestre do ano fiscal), a receita da empresa no País subiu 21% ante o período anterior. Nos 12 meses terminados em junho, a alta foi de 10% e, nesse mesmo período, 78 mil novos funcionários passaram a ser processados em folha por meio da ADP. No escritório de São Paulo, com o processo de enxugamento da infra-estrtutura comandado pelo executivo, sobra até espaço ocioso. Um dos prédios pode ser desativado. A ADP encolheu para tentar fazer melhor.