09/07/2008 - 7:00
FAÇA O QUE EU DIGO, não o que eu faço. O ditado cai como uma luva para os Estados Unidos. Nos últimos anos, as multinacionais americanas foram as grandes propulsoras da globalização, expandindo seus tentáculos nos cinco continentes. Agora, no momento em que o dólar barato fez com que suas empresas se tornassem alvo, há uma espécie de protecionismo em relação aos investimentos externos. Nas últimas semanas, duas empresas brasileiras foram alvo dessa resistência. A proposta da Inbev pela Anheuser- Busch, dona da Budweiser, e a oferta da JBS-Friboi, que quer comprar dois frigoríficos americanos, foram criticadas por senadores democratas, com base eleitoral nos locais das empresas que seriam adquiridas.
O senador Herb Kohl, presidente da Subcomissão Antitruste, de Políticas de Competição e Direitos do Consumidor do Senado, mandou uma carta ao Departamento de Justiça pedindo que o órgão não autorize o negócio, para evitar a concentração do mercado. A JBS Swift, adquirida no ano passado pela Friboi, é o terceiro maior frigorífico dos Estados Unidos. Ao adquirir o quarto e o quinto maiores, ficaria com a liderança. “Com as aquisições, esses frigoríficos teriam um grande poder de compra e os criadores de gado teriam poucas opções para quem vender”, argumenta o senador.
No Missouri, a senadora democrata Claire McCaskill teve uma típica reação xenófoba ao se opor à venda da Anheuser-Busch à belgo-brasileira Inbev. Ela enviou uma carta ao Conselho de Administração da Anheuser- Busch pedindo que a empresa não aceitasse a oferta da Inbev e que a empresa continuasse “americana”. A senadora argumenta que a Budweiser, a principal marca da cervejaria, é reconhecida como “o rei das cervejas” por causa da dedicação dos funcionários e que a companhia “nos define enquanto país”. Além disso, afirmou que “a América não está à venda”. Surpreendida com a reação política, a Inbev ainda não desistiu de uma oferta hostil, mas um acordo negociado entre as duas empresas parece cada vez mais distante. A reação da senadora é típica de quem joga para o próprio eleitorado, com intenção de proteger os empregos e manter o centro de decisões na sua base eleitoral. “Políticos locais, tanto nos Estados Unidos quanto em outros países, geralmente reagem mal a aquisições por empresas estrangeiras. Essa idéia de invasão estrangeira é fácil de explorar. É uma reação política básica”, disse à DINHEIRO Todd Malan, presidente da Organização para Investimento Internacional, um grupo que representa as empresas estrangeiras com investimentos nos Estados Unidos. Um estudo da entidade mostra que, dos US$ 2 trilhões de investimento estrangeiro direto que entraram nos Estados Unidos entre 1987 e 2006, 88% foram para fusões entre empresas americanas e estrangeiras e aquisições de companhias.
O estudo mostra ainda que nos últimos anos aumentou o número de empresas da China, Índia e Arábia Saudita investindo em solo americano. Há alguns anos, a origem do capital era quase sempre empresas dos países ricos. Outra fonte de recursos em anos recentes são os fundos soberanos, especialmente de países petroleiros. Há uma preocupação nos Estados Unidos de que esses fundos façam negócios que, ao atender aos interesses de seus países de origem, contrariem os interesses americanos. A participação das empresas estrangeiras na economia também aumentou bastante. Elas empregam hoje 5,1 milhões de americanos e representam 5,6% de todo o PIB do setor privado – um total de US$ 539,9 bilhões. “As empresas americanas que são compradas por estrangeiras geralmente ganham mais acesso a capital, maior produtividade e eficiência e acesso a um mercado global”, diz o estudo.
Mas a reação dos senadores democratas não é inédita. Em 2005, o país se levantou em protesto quando a Dubai Ports World, dos Emirados Árabes Unidos, comprou a britânica P&Om, que operava vários portos americanos. A crítica foi tão intensa, com parte da imprensa invocando questões de segurança nacional e lembrando que vários dos terroristas envolvidos nos ataques de 11 de setembro eram dos Emirados Árabes – embora o governo seja um grande aliado dos Estados Unidos -, que a empresa teve que vender a operação nos Estados Unidos. Na mesma época, o Congresso impediu que uma estatal chinesa de energia comprasse a Unocal, uma empresa petrolífera da Califórnia. Os antecedentes vão ainda além: nos anos 80, as montadoras japonesas enfrentaram forte resistência dos americanos quando começaram a ameaçar as grandes de Detroit ao oferecer carros mais baratos e econômicos. Ainda hoje, comprar um carro asiático é visto como antipatriótico em alguns setores da política americana.
PARA QUE SERVIU A GUERRA DO IRAQUE?
O petróleo do país foi aberto às firmas americanas com uma lei desenhada em Washington
Em três anos, o petróleo será mais barato do que é hoje”, profetizou o economista Phil Gramm, a um grupo de empresários brasileiros, em 2006. “Por quê?”, um perguntou. “Ora, já invadimos o Iraque”. Gramm não é um cidadão qualquer. Aconselha o candidato John McCain e será secretário do Tesouro americano, caso o republicano vença a disputa pela Casa Branca. Na semana passada, as coisas começaram a ficar claras, quando as autoridades iraquianas anunciaram a abertura do setor de petróleo a empresas estrangeiras como Exxon-Mobil, Chevron e Texaco. A notícia ganhou ar de escândalo nos Estados Unidos depois que o jornal The New York Times revelou que o modelo de licitações foi desenhado em Washington, por pessoas ligadas ao Departamento de Estado.
CAMPO IRAQUIANO: país tem a terceira maior reserva do mundo
Na Casa Branca, porta-vozes do governo de George W. Bush limitaram-se a dizer que o Iraque é um “país soberano”. Até agora, a guerra já matou 93 mil civis. E, em vez de garantir o suprimento de energia, alimentou novas tensões no Golfo. Também na semana passada, autoridades iranianas prometeram fechar o Estreito de Ormuz, por onde transitam 40% dos barris negociados no mundo, se o país vier a sofrer ataques a suas instalações nucleares. Curiosamente, um dos vídeos mais populares de John McCain no YouTube é aquele em que ele diz a um eleitor qual seria sua mensagem para Teerã: “Bomb, bomb, bomb”!