24/12/2008 - 8:00
NO INÍCIO DO SÉCULO passado, a cidade americana de Detroit ganhou o rótulo de “Motown” – ou Motor Town, em alusão às montadoras locais – e tornou-se o grande centro automotivo mundial. Na semana passada, no entanto, esse motor parecia engasgado e coberto de neve. Num movimento desesperado, a Chrysler anunciou na quarta-feira 17 o fechamento por um mês de todas as suas 30 fábricas nos Estados Unidos. As outras duas gigantes, General Motors e Ford, eram pressionadas por membros da futura equipe de Barack Obama a entrar em concordata, aderindo ao capítulo 11 da lei americana. Ainda relutantes, as três montadoras insistem num pedido de socorro imediato de US$ 14 bilhões, que pode acabar não saindo. Há duas semanas, o socorro recebeu o endosso da Câmara, mas não passou pelo Senado. As empresas argumentam que precisam de liquidez para sobreviver, já que as vendas caíram para o menor nível em 25 anos. Mas ainda não convenceram. Há dúvidas sobre a capacidade de recuperação das companhias. Nesse caso, empréstimos estatais apenas empurrariam o problema. “Se as montadoras querem dinheiro, terão de apresentar compensações, como a redução dos altos salários dos executivos”, disse o senador do Tennessee Bob Corker, que defende a concordata.
De fato, essa pode ser a única alternativa. A GM, que viu suas vendas despencarem quase 30% em 2008 (cerca de 250 mil veículos), anunciou no início da semana que precisa de US$ 4 bilhões para terminar o ano e de outros US$ 6 bilhões para seguir operando durante o primeiro trimestre de 2009. Como o dinheiro não apareceu, a companhia já começou a atrasar pagamentos de fornecedores nos Estados Unidos e na Europa. No mesmo barco, embora em situação um pouco menos desconfortável, estão Ford e Chrysler. Ambas negociam linhas especiais de crédito junto ao Tesouro, nos moldes da ajuda oferecida ao sistema bancário. Num sinal de desespero, dias atrás o presidente mundial da Chrysler, Robert Nardelli, apelou aos funcionários da companhia que enviem e-mails à Casa Branca para pressionar por uma ajuda à empresa. Mas ele sabe que a estratégia terá pouco efeito nesse atual ambiente. Na terça-feira 16, a Casa Branca sinalizou que poderia usar fundos do programa de resgate financeiro de US$ 700 bilhões para ajudar as fabricantes de automóveis, o que significa uma mudança de discurso, já que anteriormente havia declarado que os recursos eram apenas para escorar os mercados financeiros. Outro problema é a inadequação da linha de produtos das montadoras americanas, focadas em carros grandes, que consomem altas doses de combustíveis. Como os consumidores ficaram alarmados com o galão da gasolina a US$ 4 registrado há poucos meses, esse é outro complicador da crise de Detroit.
Diante desse quadro, a grande preocupação tornou-se o emprego. Juntas, GM, Ford e Chrysler mantêm 239 mil trabalhadores em Detroit e produzem 54% dos carros vendidos no país. “Falências na indústria automotiva dos Estados Unidos teriam um impacto devastador na economia do país e no mundo, muito maior do que a ajuda financeira que as montadoras estão pedindo”, argumentou o presidente da GM, Rick Wagoner. Mas o tempo tem corrido contra as montadoras. Na quarta-feira 17, o próprio presidente do poderoso sindicato United Auto Workers (UAW), Ron Gettelfinger, principal representante dos trabalhadores da indústria automotiva americana, reconheceu que não existe saída. “As fabricantes estão resistindo à falência, mas não conseguirão manter nos próximos meses os empregos e as fábricas em operação sem ajuda do governo. A moratória é iminente.
A situação caótica do setor automobilístico americano contrasta com a realidade do Brasil. Embora o enxugamento do crédito tenha atingido em cheio as vendas, as montadoras estão comparativamente em situação bem mais confortável, inclusive as subsidiárias da Ford e GM. Na semana passada, o governo federal anunciou por aqui um pacote de estímulo ao setor que inclui cortes e isenção do IPI e ampliação de linhas de crédito. Foi o suficiente para reanimar as vendas, que haviam desacelerado nos últimos dois meses. “A reação foi surpreendente. Logo após o anúncio, nossas vendas no feirão cresceram 30%”, afirmou o gerente regional de marketing e vendas da GM, Rodrigo Rumi. Para desovar os oito mil veículos em estoque, a montadora realizou, pela primeira vez em 84 anos no Brasil, cinco feirões consecutivos. Neste fim de semana, entre 19 e 21, realizará o sexto, o último do ano. “Queremos virar o ano com, no máximo, 2,5 mil carros nos pátios”, completou ele. Na Ford, que também promoveu um megafeirão de fábrica, as vendas cresceram 26% sobre o fim de semana anterior ao anúncio do pacote. “A reação das vendas brasileiras nos animou. Aquele temor de que poderia haver demissões nas linhas de produção está afastado. Existem mecanismos eficientes para ajustar a produção à demanda e garantir a manutenção dos empregos no Brasil”, disse o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Sérgio Nobre. Outra boa notícia é que, mesmo numa situação de concordata nos Estados Unidos, as subsidiárias brasileiras não seriam afetadas diretamente. “As filiais operam com estruturas jurídicas distintas”, garante Jackson Schneider, presidente da Anfavea.