O PRESIDENTE DA VALE, Roger Agnelli, abriu as comportas de uma demanda represada no meio empresarial, ao dizer que estava conversando com o presidente Lula ?no sentido de flexibilizar as leis trabalhistas?. Tendo a crise mundial como pano de fundo, Agnelli, que já anunciou 1,3 mil demissões, deu visibilidade a um processo que já ocorre em vários setores da economia. Muitos empresários abriram negociações com sindicatos para reduzir o salário e a jornada de trabalho, ambos permitidos por lei, desde que aprovado pelas lideranças trabalhistas. Mas encamparam também um movimento por mudanças na legislação. O presidente da Volkswagen do Brasil, Thomas Schmall, deu o tom. Disse que ?vai sobrar mão-de-obra? caso não feche um acordo com os trabalhadores. ?O sindicato mais flexível corre menos risco de ter demissões?, completou. A fabricante de autopeças Açotécnica, por exemplo, reduzirá em um terço a carga horária de seus 300 funcionários, com um corte de 16% nos salários, entre dezembro e fevereiro. ?São gestos sem coordenação do lado patronal?, disse à DINHEIRO o diretor do Departamento Sindical da Fiesp, Roberto Della Manna. ?Acordos pontuais não resolvem. A solução é uma revisão total das leis trabalhistas e sindicais?, diz ele.

As reivindicações empresariais encontram a simpatia do ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, mas não há consenso em Brasília. ?O governo não vai jogar a conta da crise nas costas do trabalhador?, disse o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo. O assunto, contudo, entrou na pauta e está na mesa do ministro do Trabalho, Carlos Lupi. O presidente da CUT, Arthur Henrique, diz que as empresas se beneficiam das medidas anticrise do governo e dos recursos do BNDES. ?Por isso, elas deveriam diminuir os lucros e manter os empregos.? Até mesmo os governadores resolveram entrar em cena. Paulo Hartung, do Espírito Santo, Aécio Neves, de Minas Gerais, e Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro, tentam um acordo com a Vale para evitar outras demissões nos três Estados. Cabral, por exemplo, acenou com uma redução na alíquota do ICMS. ?Já falei com o Joaquim Levy (secretário de Fazenda) sobre a questão?, diz Cabral. ?O que eu pedi ao Roger (Agnelli) é que ele não fizesse nenhuma demissão na Valesul (braço da empresa no Estado) sem antes me apresentar uma contraproposta.? Encontrar soluções para preservar os empregos é o que interessa a todos.