04/07/2007 - 7:00

Foram precisos 21 anos de espera para o Brasil finalmente aprovar a retomada do programa nuclear. Na segunda-feira 25, o Conselho Nacional de Política Energética deu o aval para a construção da usina de Angra 3. Tanto atraso causou sobrepreço de R$ 3,6 bilhões, fazendo com que as obras saiam do papel ao custo de quase R$ 8 bilhões.
Tanto dinheiro serviu como argumento para o Ministério do Meio Ambiente tentar barrar, de novo, o projeto. ?Além do preço exorbitante, em nenhum lugar do mundo há segurança em relação aos resíduos?, contestou João Paulo Capobianco, representante da ministra Marina Silva na reunião. A resposta, dura, veio da ministra Dilma Rousseff. ?Dinheiro não será problema?, disse a chefe da Casa Civil. Marina foi derrotada por nove votos a um. E Angra 3 deve ficar pronta em 2013. Insatisfeita, a ministra Marina disse que o início das obras ainda depende de uma licença do Ibama.
A questão ambiental, no entanto, não é o único nó a desatar. Oficialmente, a construtora Andrade Gutierrez, que venceu a licitação em 1982, vai tocar as obras. Nos bastidores, no entanto, a história já se desenha diferente.

As primeiras a se levantar contra a manutenção da licitação foram Mendes Júnior e Camargo Corrêa, defendendo nova concorrência para reduzir o custo das obras e também a tese de que um contrato feito na época da ditadura não deve vigorar tanto tempo depois. DINHEIRO apurou que emissários das empreiteiras percorreram a Esplanada dos Ministérios com um argumento plausível: passados 20 anos, houve mudanças tecnológicas capazes de reduzir em quase um terço o custo do projeto original. A Andrade, no entanto, tem a seu favor uma decisão do Tribunal de Contas da União que diz que o contrato de 1982 ainda está em vigor. ?No terceiro escalão pode até estar tudo certo, só que é mais em cima que as coisas são aprovadas. E lá ainda há dúvida?, diz um representante da Camargo. Dois ministros confirmaram as visitas e replicaram que o governo já trabalha para alterar o contrato, reduzindo seu valor sem a necessidade de nova licitação.

SÉRGIO ANDRADE: sua empresa corre na frente para executar as obras
O governo também lançou um plano energético até 2030 que prevê a construção de mais quatro usinas, aumentando a participação da energia nuclear na matriz de 2% para 4%. Já está acertado que uma delas será às margens do rio São Francisco. Outra frente que tem avançado é a do submarino nuclear. Os militares do projeto Aramar, da Marinha, e os cientistas da Comissão Nacional de Energia Nuclear estão projetando um reator de pequeno porte que deve ser concluído em oito anos. Para levar o projeto adiante, parte do investimento será direcionada para a prospecção de urânio. Hoje, o Brasil dispõe de 309 mil toneladas do minério. Esse volume é o suficiente para abastecer as três usinas de Angra por 520 anos. Mas especialistas contestam os números. É que apenas as usinas de Angra 1 e 2 consomem, por ano, 450 toneladas de concentrado de urânio. Com a construção de Angra 3, esse volume subirá para 750 toneladas anuais. A única mina em operação hoje é a de Caetité, na Bahia, de onde são extraídas 450 toneladas.
?Não foram feitos os investimentos necessários?, admite o ministro Sergio Rezende, da Ciência e Tecnologia. É por esse motivo que a Casa Civil discute a possibilidade de flexibilizar o monopólio estatal, que favorece a empresa INB. Com isso, mineradoras como a Vale do Rio Doce poderiam explorar o urânio. O Brasil sairia da sexta para a segunda posição no ranking mundial de extração do minério. ?Isso contraria o interesse de diversos países e, por incrível que pareça, até mesmo de alguns brasileiros?, afirma Francisco Rondinelli, presidente da Associação Brasileira de Energia Nuclear.