São 171 anos de vida, completados no mês passado. Mas a disposição para procurar encrenca com a concorrência
é digna de adolescente. Depois de um acordo com a Icatu Hartford, que deixou sob seu comando um exército de 3 mil corretores, a seguradora carioca Mongeral fechou agora uma parceria com o Unibanco e vai partir para a briga com instituições financeiras de todos os portes no cobiçado território do crédito consignado. Seu projeto de expansão em 2006 prevê ainda a fragmentação de sua estrutura ? hoje concentrada em 25 sucursais regionais ? com a abertura de pequenos escritórios, parecidos com agências bancárias, em municípios de grande e médio porte. Ao fim do processo, que deve se estender pelos próximos dois ou três anos, o mercado conhecerá um animal financeiro inusitado: uma seguradora com cara de banco.

Cauteloso, o presidente da companhia, Helder Molina, diz que a parceria com o Unibanco é apenas para oferecer assistência financeira a seus segurados. A Mongeral tem hoje 160 mil clientes individuais. A grande maioria é de funcionários públicos, que têm suas mensalidades descontadas diretamente dos salários. ?Eles muitas vezes precisam de dinheiro para emergências e são forçados a cancelar o seguro que têm conosco?, diz Molina. ?O crédito que passaremos a oferecer é, antes de mais nada, para evitar que isso aconteça.? Pode ser, mas este pacote de seguros, previdência privada e crédito com desconto em folha é um diferencial importante para um companhia com planos de avançar no ramo do consignado para o setor público ? que cresceu 82,7% no último ano e já movimenta R$ 28 bilhões. ?Nada pode ser mais eficiente para fidelizar o cliente do que oferecer dinheiro a ele?, resume Luiz Roberto Castiglione, da Academia Nacional de Seguros e Previdência.

Tempos atrás, a venda casada de seguros e crédito provocaria protestos entre bancos e seguradoras. Hoje, essa hipótese parece improvável. ?O mercado todo está buscando isso?, diz Castiglione. ?As seguradoras que não pertencem a bancos estão todas atrás de parcerias desse tipo.? Cerca de 60% das vendas de seguros e 90% dos lucros do setor estão nas mãos das instituições financeiras. Em grande medida, isso acontece porque os bancões de varejos, com milhares de agências espalhadas pelo País, não têm rivais quando se trata de atingir o público mais amplo possível. É para minimizar essa limitação que a Mongeral está investindo na abertura de pequenas células de atendimento no interior. E em treinamento especial para seus 3 mil corretores. Molina não revela suas metas de conquista desse mercado. Mas admite, eufemisticamente, que o crédito consignado ganhará um peso importante nos negócios da companhia.

R$ 28 bilhões é o volume de crédito consignado concedido até hoje no setor público