05/03/2010 - 1:00
No final de dezembro de 2009, o presidente da NET Serviços, José Antonio Felix, resolveu colocar a mão na massa. Literalmente. A empresa de tevê por assinatura havia acabado de atingir a marca de dez milhões de serviços vendidos. Felix, gaúcho de Arroio Grande, é engenheiro eletrônico e já subiu em vários postes no começo de sua carreira.

“Eles terão dificuldade para competir neste mercado. Precisarão fazer igual ou melhor que a NET” José Antonio Felix presidente da Net Serviços
Agora, no cargo máximo da empresa, foi comemorar o marco fazendo a instalação de pacotes comprados pelos clientes. Na primeira casa, o trabalho foi moleza. Uma hora e meia depois, o serviço havia sido concluído. ?Quando entrei na segunda, o técnico estava confiante e disse que seria barbada?, conta o executivo, com forte sotaque do Sul do Brasil.
Mas os dutos estavam entupidos. Os móveis precisavam ser arrastados. E mais técnicos foram chamados. ?Quase ficamos para o jantar.? A história ilustra as dificuldades que podem ofuscar a trajetória da companhia daqui para a frente. Líder no mercado de tevê por assinatura, ela é também a empresa que mais cresceu em banda larga fixa nos últimos dois anos.
Seu balanço mostra uma coleção de números vistosos. Mas o cenário que se desenha, a partir de 2010, é um avanço das companhias de telefonia neste setor, jogando uma imensa sombra sobre a NET. A Telefônica e a Oi, que já têm operações, prometem ser mais agressivas. E a francesa Vivendi, que comprou a GVT, anunciou, na semana passada, que terá operação de tevê paga no Brasil a partir deste ano. ?Eles vão ter dificuldade para competir neste mercado?, desafia Felix. ?Precisarão fazer igual ou melhor que a NET.?
E, quando se observa o balanço de 2009 da NET, os outros concorrentes também não terão vida fácil. A base de clientes de tevê por assinatura cresceu 20%, atingindo 3,7 milhões de assinantes em 2009. A expansão foi acima da média do mercado. Em banda larga, a companhia ganhou 664 mil novos consumidores, o que significou um aumento de 30% em relação ao ano anterior.
A crise da Telefônica, que ficou dois meses sem vender o seu serviço Speedy, contribuiu para esse resultado. Em telefonia fixa, cujo produto, o NET Phone, é uma parceria com a Embratel, o salto foi ainda maior: 42%. Com um desempenho assim, o lucro líquido disparou de R$ 20 milhões, em 2008, para R$ 736 milhões, mais de 3.000%. O resultado não deveria deixar nenhuma dúvida sobre o futuro da NET, empresa que tem o bilionário mexicano Carlos Slim, dono da operadora de telefonia Telmex, e a Globo, como sócios. Mas há nuvens no horizonte.
Uma das ameaças responde pelo nome de ?marco regulatório da tevê a cabo?. Um projeto de lei que está na Câmara desde 2007 abre o mercado para as empresas de telefonia. Hoje, elas já atuam no setor, mas por meio de satélite ou por tecnologia sem fio. O PL 29, como é conhecido o polêmico projeto, está em fase final de aprovação. Mas o ano eleitoral pode prejudicar o andamento do texto no Congresso.

Jean-Bernard Lévy: Vivendi, que comprou a GVT, promete lançar pacote de tevê paga ainda em 2010
?Dessa forma, o setor de tevê por assinatura pode ganhar mais um ano para se preparar para a competição mais agressiva do setor de telecomunicações?, diz um texto da corretora do Banco Fator sobre o segmento de tevê paga. Muitos analistas consultados por DINHEIRO consideram difícil o PL 29 ser aprovado ainda em 2010. Isso, no entanto, não significa uma trégua das teles.
?Nossas prioridades para a GVT neste ano são lançar novos produtos e expandir o alcance da rede?, declarou o presidente do grupo Vivendi, Jean-Bernard Lévy, em uma entrevista à imprensa, em Paris. “No que concerne a novos produtos, lançaremos o pacote de tevê por assinatura da GVT, baseado em canais locais.

? A Telefônica, que já tem quase 500 mil assinantes, diz que adotará também uma postura mais agressiva. ?Vamos atuar na base do Speedy para oferecer tevê por assinatura?, disse à DINHEIRO Fábio Bruggioni, diretor-executivo da empresa. No ano passado, o número de clientes ficou estável. Em 2010, a meta é crescer dois dígitos.
Em banda larga, os investimentos da Telefônica são estimados em R$ 770 milhões, o mesmo patamar do ano passado. ?A NET foi o maior competidor das empresas de telefonia nos últimos anos?, afirma Júlio Puschel, analista da consultoria Informa Telecom e Mídia. ?Agora, as operadoras querem entrar no mercado de tevê por assinatura como uma reação a ela.?
Mas a NET não está só nesta briga. Ela tem ao seu lado a Embratel e a Claro, duas empresas controladas por Slim. Com a primeira, a relação de sinergia é forte. Com a Claro, as conversas para um acordo duram três anos. ?Eu quero ter um Claro via Net?, diz Felix, em uma referência à parceria com a Embratel. Com forte presença nas classes A e B, a operadora mira agora a classe C.
Há dois anos, lançou o plano NET Fone.com, que por R$ 39,90 oferece telefone, banda larga e tevê por assinatura com os canais abertos. A companhia também foi a primeira a aderir ao plano de internet rápida popular em São Paulo, que vende pacotes por R$ 29,90. Durante o Carnaval, exibiu os desfiles em 3D.
Foi mais uma demonstração de que está pronta para a tecnologia, ainda que não existam televisores para este tipo de transmissão no Brasil. O número de assinantes de canais de alta definição chegou a 989 mil, uma penetração de 27% sobre os clientes de tevê por assinatura da empresa. ?Temos um portfólio de A a Z e para todas as classes sociais?, afirma Felix. ?Isso ninguém tem?, desafia, tentando levar as sombras para bem longe da NET.