DOIS CAMINHÕES FRIGOríficos carregados com 40 toneladas de carne partiram da cidade catarinense de Chapecó, na manhã da quarta-feira 3, rumo ao porto de Itajaí. A carga iria à Rússia. No meio do caminho, por determinação da empresa, os motoristas mudaram de rota. O desmoronamento de parte do cais, em razão das fortes chuvas que castigaram o Estado na última semana, transformou a principal porta comercial da região Sul numa opção inviável às exportações. O novo destino era o porto de Paranaguá, no Paraná. Duas horas depois, as carretas tiveram de fazer meia-volta novamente. Um deslizamento de terra interditou totalmente a BR-376, principal ligação do Paraná com Santa Catarina. Um paredão de 40 metros de altura, segundo a Polícia Rodoviária Federal, cobriu a pista. Seriam necessários dois dias para que a estrada fosse liberada. A última alternativa era o porto de São Francisco do Sul, no extremo norte do Estado. Depois de aguardar na fila por sete horas, os contêineres conseguiram embarcar. A via-crúcis desses caminhões ilustra bem a difícil realidade das empresas exportadoras em Santa Catarina. O vaivém da mercadoria custou cerca de R$ 600 à empresa, mas a perda poderia ter sido muito maior. A carga estava avaliada em quase R$ 1 milhão. No Frigorífico Aurora, que vende 20% da produção ao Exterior, o prejuízo foi real. A empresa destina 12 mil toneladas/mês de carne industrializada ao mercado internacional. No mês passado, foram vendidas 2,5 mil toneladas. “Perdemos mais de US$ 2,5 milhões e estamos com as exportações paradas. Nosso prejuízo será ainda maior”, diz o presidente da empresa, Mário Lanznaster. “Seremos obrigados a rever nosso sistema logístico nos próximos dias.”

Para a maioria das empresas exportadoras de Santa Catarina, prejuízo tornou-se uma palavra recorrente nas últimas duas semanas. Segundo a Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), somente nas companhias exportadoras do Vale do Itajaí – área que responde por um quarto da economia do Estado – as perdas chegaram a US$ 370 milhões em uma semana de colapso logístico. O porto de Itajaí, o maior exportador de carne congelada do Brasil, está hoje totalmente parado à espera da ajuda federal de R$ 200 milhões para as obras de reconstrução. O porto de Navegantes, logo em frente, não sofreu danos materiais, mas o canal de acesso ficará fechado até o fim de dezembro. “O prejuízo mensal é da ordem de R$ 15 milhões”, estima Osmari Castilho, superintendente do porto.

A Fiesc já calcula o prejuízo diário em R$ 70 milhões e prevê forte queda das exportações

Em Itajaí, as obras devem demorar seis meses. Mesmo com alternativas para o escoamento da produção catarinense – principalmente os portos de Santos, Paranaguá, São Francisco do Sul ou Rio Grande (RS) -, a Fiesc estima um prejuízo diário de R$ 70 milhões às exportadoras locais. Os estragos também já são sentidos na arrecadação de ICMS. Segundo o governador Luiz Henrique da Silveira, o recolhimento de tributos recuou 15% em novembro, um rombo de aproximadamente R$ 100 milhões. Parte disso é resultado da suspensão do trabalho da Receita Federal na semana passada, em razão das enchentes. “Nada entrava nem saia sem a liberação da Receita. Isso aumentou as perdas das empresas e complicou ainda mais a vida dos exportadores”, disse o diretor de relações industriais da Fiesc, Henry Quaresma.

A vida realmente não está fácil para as empresas catarinenses. A fabricante de motores industriais Weg, sediada em Jaraguá do Sul, redirecionou todo o sistema logístico para manobrar os estragos causados pelas chuvas no Estado. “Assim que soubemos que estradas e portos estavam parados, reformulamos as rotas e renegociamos com os armadores, donos dos navios, para que os embarques acontecessem em outros portos”, explicou o gerente de logística internacional da Weg, Clécio Fábio Zucco. Segundo ele, a empresa teve de deslocar cerca de 150 contêineres que estavam nos pátios dos portos de Itajaí e Navegantes para os portos de Paranaguá e São Francisco do Sul. “Houve um aumento de custos, evidentemente. Mas é uma perda pequena em relação ao prejuízo que poderíamos ter”, acrescentou Zucco, ao se referir à perda de seis contêineres no dilúvio que inundou o Vale do Itajaí. A Sadia, a Perdigão e a Diplomata, todas do setor de alimentos, que embarcavam mensalmente 1,2 mil contêineres no porto de Itajaí, também registraram perdas com os danos à infra-estrutura de Santa Catarina. Embora não divulguem números, todas confirmam que tiveram de redesenhar o mapa logístico para minimizar os prejuízos. Em nota, a Sadia informou que tomou medidas corretivas para transferir os embarques antes feitos por Itajaí para São Francisco do Sul, Paranaguá e Santos. Segundo a companhia, não houve impacto na produção porque as plantas industriais não ficam nas regiões mais afetadas. “Enquanto a recuperação de Santa Catarina não começa, vamos usando a criatividade para manter os negócios andando”, resumiu Quaresma, diretor da Fiesc.