09/03/2005 - 7:00
Há um grande movimento em curso no setor siderúrgico que deverá resultar na criação de um gigante brasileiro de porte global, capaz de fazer frente à concorrência estrangeira dentro e fora do Brasil. No comando do processo, está a Usiminas. Na mira dela, a Companhia Siderúrgica Nacional. ?Só teremos destaque na competição mundial com a concentração do mercado interno?, defende o presidente da Usiminas, Rinaldo Soares. ?E a união com a CSN é uma estratégia viável?, assegura. Seu plano,que conta com apoio (ainda informal) do BNDES, baseia-se numa análise elementar da siderurgia no Brasil. A gaúcha Gerdau já tem uma posição estabelecida no exterior. E a líder mundial Arcelor, de origem belga, controla a CST (Companhia Siderúrgica de Tubarão), a Belgo-Mineira e a Acesita. Sem pares, sobram apenas CSN e Usiminas. Daí o objetivo de criar um grupo nacional de peso voltado para a produção de aços planos, insumo básico das indústrias automobilística e de eletrodomésticos.
Unir a CSN à Usiminas é uma idéia fixa de Soares há tempos. A novidade é que agora a companhia tem dinheiro em caixa para propor o casamento. ?Soubemos aproveitar as oportunidades abertas pelo crescimento econômico e estamos prontos para investir?, diz o executivo. O recém-divulgado balanço de 2004 da siderúrgica traz na última linha um lucro líquido de R$ 3 bilhões, que representa um crescimento de 138% sobre o resultado do ano anterior. Com este desempenho, a Usiminas livrou-se finalmente do fantasma da alta margem de endividamento, que a acompanhava desde a privatização, em 1991. Seu passivo total encolheu em mais de R$ 1 bilhão e a relação entre a dívida e a geração de caixa fechou em satisfatórios 0,6%. Paralelamente, foram saneadas as contas da Cosipa, siderúrgica paulista controlada pelos mineiros, que registrou ganho de R$ 900 milhões em 2004. A usina de São Paulo, aliás, terá seu capital fechado para reduzir custos operacionais e simplificar a composição acionária do grupo, abrindo caminho para uma futura fusão.
De seu lado, a CSN, que não se manifesta publicamente sobre os planos da rival mineira, jogou gasolina na fogueira de rumores ao anunciar, na semana passada, mudanças em seu controle acionário. A família Steinbruch fechou um acordo para a compra dos 50% do capital da companhia que pertenciam à família Rabinovich e concentrará o controle da CSN em suas mãos. A concretização desta esperada reestruturação ? cujo valor é estimado em algo entre US$ 700 milhões e US$ 1 bilhão ? foi interpretada pelo mercado como um movimento para eliminar o duplo comando e facilitar possíveis negociações. Seria este um convite à aproximação da Usiminas? ?Isto você tem de perguntar ao Benjamim Steinbruch?, diz Soares, passando a bola para o presidente da CSN.
Enquanto os planos para criar o gigante brasileiro do aço vão ganhando forma, a Usiminas continua com os seus projetos autônomos de expansão. A companhia está iniciando a construção de uma nova coqueria (usina que transforma carvão em coque, o combustível queimado em seus fornos) e de uma termelétrica, para aumentar a capacidade de geração de energia própria. Ao todo, serão desembolsados US$ 615 milhões até 2007. Nem os aumentos da ordem de 70% no preço do minério de ferro fornecido pela Companhia Vale do Rio Doce tiram o entusiasmo de Soares. ?A negociação com eles é contínua e os contratos são negociados caso a caso?, pondera. Está em estudo, no momento, a ampliação da usina de Ipatinga, a principal do grupo, no chamado Vale do Aço. A idéia é aumentar sua capacidade de produção em dois milhões de toneladas a partir de 2009, o que demandaria até R$ 1 bilhão. O estímulo para megaprojetos como este está na expansão do consumo interno. A demanda por aço no Brasil cresce duas vezes mais rápido que o PIB e aproximou-se de 19 milhões de toneladas em 2004. Estima-se que irá bater em 22 milhões até o fim da década. Os investimentos internos e a eventual fusão com a CSN, portanto, são vistos na Usiminas como estratégicos para tirar o máximo proveito do cenário excepcional para a siderurgia dentro e fora do Brasil. Declaradas as intenções mineiras, a palavra agora está com os Steinbruch.
R$ 3 bilhões foi o lucro da Usiminas em 2004