09/03/2001 - 7:00
Desta vez, não se trata de mais uma tediosa reunião global sobre meio ambiente. Os cientistas reunidos desde a semana passada em Trieste, na Itália, para discutir em nome dos oito governos mais ricos do planeta as formas de controlar as emissões de poluentes e evitar o aquecimento da Terra têm, nas mãos, um instrumento capaz de dar urgência às suas deliberações: um relatório de mil páginas recheado de previsões alarmistas sobre o clima do planeta. A pior das notícias contida no relatório é que as catástrofes naturais tendem a se acentuar. Locais que já são secos vão secar ainda mais, e onde há chuvas demais as coisas também vão piorar, e muito. ?Teremos diminuição de chuvas, fortes secas em algumas áreas e enchentes em outras. Haverá muitos prejuízos agrícolas?, afirma Robert Watson, um dos organizadores do relatório.
Outras más notícias são a elevação contínua e mais acelerada na década de 90 da temperatura média na terra e mares, além da diminuição das áreas cobertas por neve eterna e gelo. As previsões feitas a partir dos dados levantados até agora apontam um aumento da temperatura média do planeta de 1,4 grau até 5,8 graus Celsius. A temperatura do mar também deve subir 0,09 grau, o que pode causar durante o século 21 a elevação em 80 centímetros no nível do mar. Feitas por um grupo de estudiosos sob os auspícios das Nações Unidas, as previsões atingem em cheio os países tropicais. Afinal, eles têm menos condições de combater secas, enchentes e doenças provenientes das oscilações climáticas, além de depender muito mais da economia agrícola. O estudo é o terceiro de uma série, divulgado a cada cinco anos, e é considerado o mais preciso pela própria ONU.
Há no estudo da organização uma outra conclusão, ao mesmo tempo triste e promissora ? a de que as mudanças climáticas, sobretudo as ocorridas nas décadas de 80 e 90, foram causadas diretamente pela ação humana. Logo, afirma o relatório, podem ser revertidas ou mitigadas pelo mesmo homem. Assim sendo, a previsão de mais secas e enchentes deveria estar fazendo com que o Brasil agisse rápido para minimizar as perdas. Mas, até agora, o País não se mexeu. Foram criados um Fórum de Discussão e uma Comissão Interministerial que não passaram do papel. Escalado para cuidar do assunto Clima dentro do governo, o ex-deputado ecologista Fábio Feldman informa que o Brasil está ainda engatinhando. ?Os estudos internacionais ainda não são um consenso?, diz ele. ?Mas o tema é fundamental.? Os próximos dias mostrarão se o papelório da ONU é suficiente para constranger, em Trieste, os representantes dos países ricos. Campeões absolutos em poluição mundial, são eles os mais relutantes em cumprir os protocolos de redução de emissão de poluentes. Espera-se de Christine Whitman, diretora da agência ambiental americana, um sinal de que o país que produz um quarto da sujeira atmosférica do mundo está disposto a tirar o pé do acelerador ? antes que o clima esquente.