07/07/2001 - 7:00
O que é melhor: uma inflação controlada com um crescimento medíocre ou uma inflação um pouco maior com uma economia mais saudável? Esse debate, que parecia superado, voltou a tirar o sono do presidente do Banco Central, Armínio Fraga, depois de sete anos do Plano Real. Suas alternativas são tentar domar o dragão da inflação com mais juros e uma forte recessão ou, eventualmente, permitir o estouro da meta de 2001, já por um triz, que é de 4%, com margem de tolerância de até 6%. Para um dos pais do regime de metas inflacionárias, o economista Sérgio Werlang, ex-diretor de Política Monetária do Banco Central, a segunda opção é mais inteligente. ?É melhor do que sacrificar ainda mais a atividade produtiva?, afirma (leia sua entrevista na página 30). Não é uma escolha simples, pois o sistema de metas, em seu terceiro ano, perderia parte de sua credibilidade. Mas Werlang diz que há situações excepcionais, em que é legítimo, em caráter temporário, abrir mão da ortodoxia. É uma visão que tem respaldo empresarial. ?Não faz sentido subir os juros com uma economia já em desaceleração?, diz Horácio Lafer Piva, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. ?Além de não resolver a crise de confiança, uma taxa maior traria custos altíssimos para as empresas e ainda encareceria os investimentos em energia?, afirma.
Mas nessa discussão não há consenso. De um lado, estão os que se colocam na torcida por um novo choque de juros, como o que ocorreu após a maxidesvalorização de 1999. Naquele ano, para combater a alta do dólar, as taxas chegaram a 45% ao ano para depois cair gradativamente. De outro, estão os que, como Werlang, consideram melhor simplesmente esquecer, temporariamente, as metas de inflação e apresentar desculpas convincentes.
O ex-presidente do Banco Central, Gustavo Loyola, é um dos que apostam que um arrocho na política monetária acabará sendo inevitável, pela inabilidade que o governo demonstrou até agora em atacar a alta do dólar ? na última semana, a moeda americana andou perto de R$ 2,60, apesar das intervenções diárias do Banco Central. Outros analistas, como Emílio Garófalo, ex-diretor do BC, são até mais radicais. Garófalo defende uma elevação de 5 pontos na taxa de juros. Assim, ao mesmo tempo seria possível atrair mais dólares para o País e também esfriar a economia para recolocar a inflação no lugar, preservando a credibilidade da política de metas inflacionárias. Só que o remédio, além de amargo, poderia arrasar uma economia já em marcha lenta, depois das crises do dólar, do apagão, da Argentina e da base de sustentação política, afetando ainda mais a produção e o emprego.
É por isso que há cada vez mais argumentos para uma postura flexível do Banco Central em relação à inflação. ?Ninguém morreria se, em vez de 6%, o índice oficial fechasse o ano em 7% ou um pouco mais?, diz o economista Edmar Bacha, do banco BBA, que participou da elaboração do Plano Real e acha que os juros só deveriam subir se a inflação se aproximasse de 10%, o que, definitivamente, não é o caso. Na sua avaliação, o Brasil não vive um processo inflacionário, mas apenas uma reacomodação de preços relativos. Traduzindo: alguns preços, como os das tarifas de energia e dos produtos diretamente afetados pelo dólar, ficaram mais caros, mas isso não se propagará necessariamente para o resto da economia. ?Não há nenhum movimento de repasse desses aumentos para os salários ou para outros setores da economia?, diz Bacha. Com o desemprego ainda alto e a confiança dos consumidores em baixa, o espaço para aumentos de preços e salários é limitado. É por essa razão que o próprio presidente da Central Única dos Trabalhadores, Antônio Felício, decidiu antecipar as campanhas salariais de 2001. ?As negociações serão mais duras neste ano?, afirma. Na prática, a tendência é que tanto os trabalhadores quanto os empresários tenham que se contentar com rendimentos e margens de lucro mais modestos em 2001.
Há ainda outras razões contra a tese de um novo aumento de juros. O economista Heron do Carmo, responsável pelas pesquisas de preços feitas pela Fipe na capital paulista, diz que a alta da moeda americana já se refletiu nos índices de preços de maio a julho, porque a maior parte das tarifas foi reajustada nesse período. ?O que acontecer com o dólar de agora em diante terá efeitos maiores na inflação apenas na metade do ano que vem, quando ocorrerem os novos aumentos dos preços dos serviços públicos?, afirma.
Portanto, mesmo que o dólar vá a R$ 3,00, diz Heron, a meta de inflação de 2001 será pouco afetada. Em doze meses, a inflação acumulada em São Paulo é de 6,23%, pouco acima da meta de referência do Banco Central. Mesmo assim, ele acredita que, com a taxa de juros atual, de 18,25% ao ano, seja possível terminar o ano com uma inflação próxima a 5,5%, ainda que uma geada possa colocar tudo a perder. ?Subir os juros teria efeitos arrasadores sobre a economia, sem necessariamente resolver o problema do dólar e da inflação?, diz Heron do Carmo. ?Seria o mesmo que jogar fora a criança junto com a água do banho.?
Com juros maiores, o governo também perderia em outras frentes. Hoje, com a crise de energia, a candidatura do Planalto à sucessão presidencial, do ministro José Serra, permanece enguiçada no quinto lugar nas pesquisas. ?O dólar alto tem forte relação com as chances concretas de vitória da oposição e uma recessão só favoreceria os adversários do governo?, diz Heron do Carmo. Além disso, os chamados fundamentos da economia, de que tanto se orgulha o ministro Pedro Malan, ficariam piores do que já estão. ?Com juros menores e um certo crescimento, ainda é possível estabilizar a dívida pública, apesar da alta do dólar??, diz Fábio Akira, economista sênior do banco BBV. ?Mas com juros altos e recessão, o lado fiscal tende a ficar muito ruim.? As cartas estão na mesa e a opção do Banco Central começará a ficar clara na próxima reunião do Comitê de Política Monetária, na quarta-feira, 18. A falência argentina, certamente, criará mais pressões para uma nova alta dos juros,
mas, se o objetivo da política monetária é a estabilidade de
preços, sem fanatismos, não está nem um pouco clara a necessidade de mais um choque.
?NÃO É UMA CAMISA-DE-FORÇA?
O economista Sérgio Werlang, ex-diretor de Política Monetária do Banco Central, foi o principal responsável pela implantação do regime de metas inflacionárias no País, em julho de 1999. Na sua avaliação, o governo tem sido ortodoxo demais e diz que o regime não foi concebido para atar as mãos das autoridades monetárias. Werlang acha que há espaço até para queda na taxa de juros. A seguir, trechos da entrevista que concedeu a DINHEIRO.
DINHEIRO ? A inflação já está no limite da meta fixada pelo BC. O que é melhor: mais juros para controlar o dólar e os preços ou permitir o estouro da meta e um crescimento maior?
WERLANG ? O regime não foi concebido como uma camisa-de-força. O que se tem no Brasil, claramente, é um choque de oferta, motivado por diversos fatores excepcionais, como a crise na Argentina e os problemas na área de energia, que trazem conseqüências políticas. Hoje, a possibilidade de vitória nas próximas eleições presidenciais de uma candidatura não alinhada com a atual política econômica é muito maior. São esses fatores, somados, que explicam a alta do dólar. O Banco Central não tem como combater um choque de oferta. Deve apenas tentar evitar seu repasse para os preços. Com a taxa de juros atual, de 18,25%, o BC está prevendo uma inflação de 5,8%. Só que o crescimento, que antes poderia ser próximo a 4%, ficará perto de 2,5%. Como o País já cresceu 4,1% no primeiro trimestre, isso significa que a economia tende a ficar estagnada até o fim do ano.
DINHEIRO ? Mas ainda há analistas propondo um novo choque de juros, com uma taxa muito maior…
WERLANG ? Isso não faz sentido. Acho até que a taxa poderia estar bem abaixo do nível atual. Se os juros tivessem ficado perto de 15,5%, como estavam antes, a inflação talvez chegasse a 6,5% ou 7%, mas o crescimento seria próximo a 4%. Olhando o custo-benefício, seria uma opção mais adequada.
DINHEIRO ? Um eventual estouro não liquidaria a credibilidade da política de metas inflacionárias?
WERLANG ? Cumprir a meta é sempre melhor do que não cumpri-la. Mas tudo depende da consistência da justificativa. Acho que o Banco Central tem argumentos mais do que razoáveis para um eventual estouro pequeno da meta. O próprio regime prevê essa situação. Bastaria que o Armínio Fraga encaminhasse uma carta ao ministro da Fazenda expondo suas razões. No Canadá, quando o regime foi implantado, eles também enfrentaram um choque no primeiro ano, ultrapassaram a meta, mas depois tudo voltou ao normal. Acho que tanto o mercado quanto o FMI compreenderiam que se trata de uma situação excepcional.