Vender micros no Brasil não é uma tarefa fácil. Com a abertura do mercado de informática, há dez anos, competidores internacionais de porte como Dell, Compaq, Acer e outros aterrissaram no País com marcas fortes e preços atrativos. Eles chegaram para brigar com Apple, IBM e outros nomes não menos importantes que já haviam fixado seus alicerces por aqui. Mas talvez esse nem seja o maior obstáculo. Uma parcela considerável ? cerca de 60% de tudo o que é comercializado ? vem do chamado mercado cinza, em que as placas de memória e os monitores cruzam a fronteira sem pagar qualquer imposto. Porém, um competidor tem mostrado que há espaço para empresas nacionais disputar, com chance, os consumidores no País. ?Anos atrás, todos acreditavam que as companhias brasileiras não iriam sobreviver a tudo isso. Mas o pessimismo já passou?, diz Gabriel Marão, vice-presidente da Itautec, que tem uma fábrica em São Paulo e produz semicondutores em Jundiaí, interior do Estado. ?Mesmo depois de tudo, conseguimos nos consolidar entre os líderes do mercado.?

Fundada em 1979 para prestar serviços de automação bancária ao banco Itaú, a companhia se mantém como a segunda colocada na venda de PCs, perdendo somente para a americana Compaq. Sua linha de produção localizada no bairro do Tatuapé, na capital paulista, trabalha de segunda a sábado para produzir 800 computadores por dia. Em 1998, as 85 mil unidades produzidas garantiram uma fatia de 4,4% do mercado de micros, de acordo com números do IDC, instituto que pesquisa o mundo da informática. No ano passado, o total foi quase o dobro: 167 mil ? o que elevou a fatia para 5,7% e deu gordas bonificações para seus diretores. Este ano, a meta é vender 250 mil unidades.

A posição foi conquistada com a diversificação da linha de produção e os constantes avanços tecnológicos. Desde o final de 1998, a equipe de mais de 300 desenvolvedores lançou uma série de produtos para fazer companhia ao ligeiro Infoway, primeiro no Brasil a ser vendido pela Internet. A empresa criou a linha Infoway Business com a missão de disputar o mercado corporativo. ?A Itautec é muito presente tanto entre os usuários finais quanto nas empresas?, diz Ivair Rodrigues, analista do IDC. ?Quando participam de concorrências, são muito fortes.? Os PCs Transglobe vieram com preços mais baixos para concorrer com o contrabando. O notebook, por sua vez, acaba de ser lançado. ?Passamos a oferecer produtos em várias faixas de preço, de acordo com o preço que o cliente esperava?, diz Marão. Outra arma da Itautec para ser bem-sucedida é acompanhar, sem atraso, as inovações que ocorrem em outros países. Em novembro do ano passado, a Itautec saiu na frente dos concorrentes e foi a primeira a vender um PC recheado com o processador Pentium 4, o mais veloz da família. ?A Itautec tem sido vanguardista nos lançamentos da Intel e está sempre alinhada com o que acontece no exterior?, diz Paulo Cunha, presidente da Intel no Brasil. ?Eles nunca ficaram atrás de nenhuma outra empresa nesse quesito.?

Os produtos que foram sendo paridos pela fábrica caíram no gosto dos consumidores e jogaram para cima a produção da companhia. No ano passado, a receita com os micros Itautec se equiparou com a de terminais automáticos para bancos, que também contou com novidades. A vedete da fábrica atende hoje pelo nome de Web Way Slim, um estiloso terminal de acesso à rede. A máquina pode ser utilizado por clientes de bancos para consultar saldos e ainda permitir a navegação na Internet por meio de um ordinário cartão telefônico. As primeiras unidades já foram vendidas para a Telemar e estão operando no Rio de Janeiro. Até o final do ano, espera-se produzir 2 mil terminais para outros quatro clientes de telecomunicações e dois do varejo. ?Temos de ampliar nossa escala para ganhar competitividade?, diz Marão. A regra vale para todos os produtos da companhia e é compartilhada também pelas demais empresas nacionais que querem se resguardar de eventuais medidas governamentais ou das subidas e descidas no consumo. ?Nossa situação é difícil porque não temos pai rico lá fora para nos prevenir das variações no câmbio e nas taxas financeiras?, afirma Cássio Fernandes Augusto, diretor de marketing e comercialização da também nacional Metron, que aparece em terceiro lugar nos rankings do Gartner e do IDC na venda total de micros. Se depender deles, nomes nacionais ainda vão constar na lista dos maiores vendedores de micros por mais tempo.