Há muito não se ouvia um apelo tão dramático na Esplanada dos Ministérios. Eram aeromoças em pranto, pilotos tentando subir a rampa do Planalto e comissárias agarradas a imagens de Santo Expedito, o santo das causas impossíveis. Com um megafone, um comandante fazia, na terça-feira 11, a última chamada da Varig aos credores ? o que se pedia era um prazo adicional para a empresa regularizar dívidas com a Infraero e a BR Distribuidora.

Em outras capitais, como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, os funcionários carregavam cartazes com tom político. Num deles, a mensagem: ?Lula, se a Varig quebrar, você perderá 100 mil votos?. Nada disso foi suficiente. Na mesma terça-feira 11, o presidente Lula sentenciou: ?Não cabe ao governo salvar empresa falida?. No dia seguinte, veio um sinal ainda mais contundente de Brasília. A Secretaria de Previdência Complementar liquidou o Aerus, fundo privado de aposentadoria dos funcionários da Varig. Foi quase o golpe de misericórdia. Com US$ 100 milhões do Aerus, os funcionários pretendiam capitalizar a Varig. Agora, os recursos ficarão bloqueados. ?Queríamos trocar aposentadorias incertas no futuro pelos empregos do presente?, disse Márcio Masillac, de uma associação de trabalhadores da Varig. ?Era uma proposta razoável, com nosso dinheiro?.

Embora as portas tenham se fechado em Brasília, os funcionários ainda lutam para salvar a companhia. Na quarta 12, eles conseguiram uma liminar que arresta os bens operacionais da empresa. Na prática, aviões, hangares e pontos nos aeroportos serão geridos pela consultoria Alvarez & Marsal, indicada pelas empresas que fazem o leasing das aeronaves. ?A Varig é viável e dá lucro operacional?, diz Paulo Calazans, consultor jurídico da associação dos pilotos. ?Só precisamos isolar os ativos bons de um passado contaminado por dívidas?. O problema é que, em Brasília, o cerco à Varig tem sido intenso. Autoridades pressionam a BR e a Infraero a cobrar dívidas de curto prazo, que somam mais de R$ 200 milhões. Se isso acontecer, a empresa pode parar. E a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, declarou que não haverá dinheiro público no resgate da Varig. ?Os credores externos têm sido mais colaborativos do que o governo?, diz o presidente da Varig, Marcelo Bottini. E como os funcionários não pediram créditos oficiais, mas só um prazo maior, a animosidade também cresceu do lado de lá. Os empregados alegam que o governo age em defesa de interesses inconfessáveis, de concorrentes interessados no desaparecimento da Varig. A morte por sufocamento, por sinal, é um cenário não descartado, pois os próprios clientes começaram a se retrair.

A tese que predomina no governo, porém, é de que a saída seria render-se à lógica fria do mercado. Se uma empresa quebra, o caminho é permitir que concorrentes bem administrados ocupem o espaço. Ainda assim, é uma tese controversa. ?Deixar quebrar é a pior solução?, diz o economista Paulo Guedes, conhecido por suas idéias liberais. ?Os credores não recebem, o governo perde impostos, os funcionários ficam sem emprego e o mercado torna-se menos competitivo?. O melhor, diz Guedes, seria separar a Varig em dois pedaços. A parte podre, com dívida de R$ 7,5 bilhões e uma ação bilionária contra a União, ficaria com os antigos donos da Fundação Rubem Berta. A parte operacional seria entregue a novos gestores. Dias atrás, houve até uma oferta. A Varig Log, subsidiária de logística da Varig adquirida por investidores externos, ofereceu US$ 350 milhões pela companhia. A proposta, porém, sequer foi analisada em Brasília.

A eventual falência da Varig também traria transtornos. Além dos 9 mil empregos perdidos, o mercado interno ficaria nas mãos de um duopólio ? TAM e Gol controlariam mais de 80% dos assentos. ?O Brasil também perderia vários destinos turísticos?, avalia o ex-ministro do Turismo, Caio Luiz de Carvalho. ?Isso pode ser bom para a TAM, mas é ruim para o País?. Hoje a Varig vem desabando no mercado doméstico, mas mantém participação de 75% nos vôos internacionais. E mesmo que outras empresas nacionais pudessem ocupar o espaço, a tendência inicial seria de aumento na participação das companhias estrangeiras. Haveria danos também para o consumidor. Mais de 20 mil brasileiros adquiriram passagens para a Copa do Mundo da Alemanha em vôos Varig. E quatro milhões perderiam suas milhas Smiles.

A decisão de abandonar a Varig à própria sorte também marca uma mudança de postura do governo. Em 2003, Lula dizia que a empresa era ?estratégica?. Foi assim que surgiu o compartilhamento de vôos Varig e TAM. A parceria ruiu porque fez bem à TAM e mal à Varig. Depois, Lula delegou ao vice José Alencar a tarefa de solucionar o caso e quase permitiu que a empresa fosse adquirida pelo polêmico Nelson Tanure, o que foi barrado pelos credores. Agora, predomina em Brasília a tese do ?mercado é assim mesmo?. Todas as idas e vindas fizeram mal à companhia. As ações caíram mais de 60% e, na semana passada, houve até o rumor de que a CVC teria interrompido a compra de passagens ? o boato foi negado pela operadora de turismo. ?Se o governo decidiu virar as costas, deveria pelo menos não atrapalhar os funcionários?, diz Yeda Crusius (PSDB-RS), que preside a Frente Parlamentar em Defesa da Varig. Com tantos obstáculos, o resgate da Varig passou a ser mesmo uma operação para Santo Expedito.