Era uma visita de trabalho à sede da Levi?s, em São Francisco, Estados Unidos. Mas Carlos Kanadani, diretor da fabricante de tecidos Corduroy, de Pernambuco, jamais podia imaginar que o cliente-anfitrião lhe surpreenderia com um desafio que mudaria para sempre a cara de seus negócios. A dona do jeans mais famoso do mundo pediu para o brasileiro desenvolver um novo tipo de veludo que pudesse ser usado em roupas de meia-estação. Corria o ano de 2001, e até então, o tecido estava irremediavelmente associado a calças e casacões que só saíam do armário em noites frias de inverno. Desafio aceito e superado. Com investimento de US$ 1 milhão (valor modesto para uma empresa de R$ 100 milhões por ano), os técnicos da Corduroy desenvolveram o Spring Cord. Ele pesa cerca de 250 gramas por metro quadrado, contra 290 gramas do jeans, o tecido de uso diário por excelência. Kanadani não dá os detalhes da engenharia têxtil por trás da novidade, é claro. Diz apenas que ela é feita com fios de algodão e poliéster dispostos em uma trama que é escovada e lavada diversas vezes. ?Assim, ele fica mais leve e deixa a pele respirar, ao contrário do veludo tradicional?, afirma o executivo. Sem contar o lado, digamos, mais interessante: o Spring Cord é 30% mais caro.

A Levi?s, no entanto, foi só o começo da história. O Spring Cord é hoje uma espécie de queridinho de estilistas do Brasil e do exterior. Nele são costuradas etiquetas de grifes sofisticadas e descoladas de Brasil, Estados Unidos e Europa. A lista inclui Daslu, Le Lis Blanc, Yes Brazil, Cavalera, Zoomp, as italianas Diesel e Rifle, as americanas GAP, Wrangler e, claro, a Levi?s. O produto representa 30% das exportações da Corduroy, que atingem R$ 50 milhões ao ano. Contudo, o diretor Kanadani acha que ainda há um longo caminho a percorrer. Para ampliar a presença do tecido no circuito internacional ele participará de uma série de feiras nos próximos meses. Na semana passada, desembarcou novamente nos EUA para exibir o tecido na New York Textile Show, que reúne os designers de marcas como Marc Jacobs e Banana Republic. A próxima escala será em Paris, em fevereiro, na exclusiva Première Vision. O final desse périplo está marcado para março, quando haverá um encontro com um grupo de fornecedores de marcas globais, em Pequim (China). ?As vendas do Spring Cord crescem na faixa de 25% ao ano?, festeja o executivo.

Fundada em 1959 pelo imigrante húngaro Stevão Diamant, com o nome de Suape Têxtil, em pouco tempo a Corduroy (palavra inglesa para veludo) se tornou a única fabricante da categoria no País e a maior da América Latina. De suas três fábricas (em Pernambuco e São Paulo) saem 30 milhões de metros lineares de tecidos: jeans, sarja, tricoline, cetim e também o veludo tradicional. Ela sobreviveu à abrupta abertura do mercado brasileiro na década de 90 graças aos fortes investimentos em tecnologia. A atualização do parque industrial consumiu US$ 50 milhões. Também pesou a entrada em cena de sócios estrangeiros. Em 1998, a família vendeu metade do controle ao fundo americano New Bridge Latin America por US$ 24 milhões. ?O Spring Cord é nosso passaporte para a eternidade?, aposta o diretor Kanadani.