18/05/2001 - 7:00
Banco Liberal e Multibanco já foram concorrentes. Um no Rio, outro em São Paulo. O primeiro tinha como sócio majoritário o americano NationsBank; o segundo, era integralmente controlado pelo Bank of America. Um dia o Nations comprou o Bank of America, há três anos, adotou o nome da instituição incorporada e todos passaram a viver sob o mesmo controle ? mas, no Brasil, debaixo de tetos separados. Pois a existência em paralelo de Liberal e Multibanco tem agora prazo para acabar. O conglomerado começou a juntar suas duas operações no País em uma só, com o objetivo de construir um único e musculoso banco de investimento local, e tem pressa de ver tudo pronto. O último obstáculo, uma participação acionária de 30% no Liberal que ainda permanece nas mãos dos antigos donos, Aldo Floris e Antônio Carlos Lemgruber, está na reta final para ser removido. ?Temos opção para comprar o resto do banco e vamos exercê-la. A nova estrutura estará pronta este ano?, diz o vice-presidente executivo Graham Denton, responsável no conglomerado pela área de mercados emergentes.
A matriz do banco, em Charlotte, Carolina do Norte, decidiu imprimir um ritmo acelerado ao processo por uma questão de prioridade. ?Nosso foco principal fora dos Estados Unidos está em Brasil e México?, explica Denton. É uma mudança de postura na corporação, tradicionalmente muito voltada para o próprio mercado, o americano, e pouco dedicada a operações externas. Países emergentes da Ásia e do Europa Oriental vêm depois, na lista de operações internacionais, em segundo plano. Os ativos somados de Liberal e Multibanco, de R$ 2,6 bilhões, servem apenas de ponto de partida para o projeto brasileiro do grupo. ?Estamos claramente decididos a crescer?, diz o executivo. Mas a rentabilidade não vai poder ser sacrificada e vai ter que andar em linha com a da matriz. A meta é de retorno de 20% sobre o capital, que é de R$ 363 milhões. ?Ainda não temos isso nem nos Estados Unidos, mas é a meta?, diz ele.
A instituição que nascerá da fusão usará somente a bandeira Bank of America e terá uma espécie de relançamento para o mercado tão logo a fusão estiver pronta e oficializada. A placa vem com a ambição de ser fixada no território ocupado pelos bancos de investimento top de linha, como J.P. Morgan e CSFB Garantia. A área do banco voltada para os mercados financeiros terá três segmentos, que foram os primeiros a ficarem prontos. Deles, o símbolo mais visível do que o grupo quer do País é a área de mercados globais. O segmento, montado por um ex-diretor-geral do J.P. Morgan, Ian Dubugras, especializou-se na elaboração de produtos financeiros complexos para corporações de grande porte. A façanha que mais dá orgulho até o momento é a montagem de operações de hedge (proteção contra riscos de mercado) de até 15 anos no mercado brasileiro, enquanto o restante do mercado mal chega a sete anos. Também oferece hedge para empresas brasileiras em euro e iene, o que só mais um banco faz no País. ?O que faltava era sofisticar a área de produtos dos bancos?, diz Dubugras.
Outros dois segmentos já montados são a empresa de gestão de recursos e a corretora. A primeira, iniciada pouco antes de Nations e Bank of America se unirem, há três anos, saiu do zero e chegou este ano a um patrimônio de R$ 5 bilhões. No ranking brasileiro, é a segunda entre as instituições que não têm rede de varejo para distribuir seus fundos, atrás da BBA-Icatu. ?Vamos passar para primeiro?, aposta José Alfredo Lamy, diretor geral da Bank of America Liberal Asset Management. É o mais consolidado dos negócios do grupo no País. Vende seus serviços para as 70 maiores fundações de previdência e tem seus fundos na prateleira do private banking de quase todos os grandes bancos brasileiros. Já a corretora nada mais é do que a antiga Liberal, sediada no Rio, mas com presença direta também em São Paulo.
Falta agora concluir a transformação na área de banco de investimento, responsável por negócios como fusões e aquisições. Há dúvidas quanto ao modelo. O banco não sabe ainda, por exemplo, se vai ou não ter uma área independente de private equity. Mas já sabe que o foco vai ser também nas maiores empresas do País. ?Há no máximo cem empresas com porte suficiente?, calcula Ian Dubugras. Acima de todos esses segmentos, na hierarquia do Bank of America brasileiro, pairam ainda Aldo Floris, presidente dos dois bancos que vão ser fundidos, e Lemgruber, vice-presidente. O destino deles, após a venda das ações que ainda possuem no Liberal e a consolidação dos bancos, é um mistério bem guardado. ?Temos uma bolsa de apostas interna. Uma boa parte acha que eles ficam, porque adoram trabalhar, mas há quem ache que o Aldo vai sair para navegar e o Lemgruber, para criar cavalos?, diz um funcionário.