27/07/2004 - 7:00
Clotilde, uma cadela da raça setter, tem lugar cativo no escritório do dono. A cachorra acompanha a jornada de trabalho do arquiteto Frederico Oliveira. No fim do expediente, a dupla faz uma caminhada no parque, na zona oeste de São Paulo. Depois, cada um vai para o seu lado. Clotilde, hoje com quatro anos, mora com a ex-mulher de Oliveira. Quando o casal se separou, há dois anos, o animal de estimação passou a ficar de dia com ele e de noite com ela. ?Quero mais um cãozinho, mas tenho que equilibrar os gastos?, diz Oliveira, assustado com as contas. Desde que o bicho passou pela ascensão social de sair do quintal e freqüentar a sala de estar, o seu custo de vida também subiu e muito. Hoje, oferecer uma vida boa para o amigo de quatro patas é caro. Nas casas veterinárias de primeira linha, a conta da clientela fica, em média, em torno de R$ 1 mil por mês, de acordo com a Associação Brasileira do Mercado Animal (Abma). Não se trata de esbanjar com roupas de grife ou coleiras com pedras preciosas, produtos do mercado de luxo canino. Na maioria das vezes, a fatura inclui apenas alimentos de qualidade, remédios, produtos e tratamentos de higiene, além dos acessórios básicos, como coleira, guia e casa. Vale acrescentar, ainda, uma diária de fim de semana em um hotel para cães em caso de viagem dos donos.
Aqueles que fazem questão dos extravagantes mimos, como jóias e perfumes caninos, exige-se cautela. ?Tenho clientes que gastam R$ 7 mil em apenas uma visita ?, diz Luiz Carlos Pereira, proprietário da loja veterinária Pet From Ipanema, no Rio de Janeiro. Mesmo quem segue a linha econômica precisa se preparar para abrigar o morador de focinho gelado. No mês passado, por exemplo, o dono de Clotilde deixou R$ 576 no veterinário. Foram quatro banhos mensais (R$ 200), higiene bucal (R$ 160), remédio antipulgas (R$ 36), exame de fezes (R$ 20), vermífugo (R$ 20) e três doses das vacinas anuais (R$ 140). Era época de check-up. Da lista, ficaram de fora os gastos com acessórios e brinquedos. ?Essa parte é por conta da dona dele?, ri Oliveira. Do cardápio de primeira linha, ele não se livrou. Desembolsa R$ 500 pela ração da lulu.
Cachorros que precisam de uma dieta especial abocanham cifras mais consideráveis. Há uma linha de rações de baixa caloria para os caninos que brigam com a balança, grãos para os diabéticos e outras balanceadas para os cardiopatas. A Royal Canin lançou, neste mês, alimentos específicos para cada raça. O preço do produto diferenciado é cerca de 50% acima da média. ?Há cinco anos, não paramos de crescer?, diz Cláudio Manfredine, da Royal Canin. Para este ano, o setor projeta um faturamento de US$ 1,3 bilhão, 8% superior ao registrado em 2003. São mais de 200 produtos nas prateleiras. A oferta é proporcional à demanda. ?O Brownie é muito sensível e sofria com as rações tradicionais?, diz a estudante de psicologia Gabriella Von Reininghaus, dona de um labrador chocolate (atenção: é chocolate, e não marrom). O cão, saliente-se, é alérgico. Para descobrir a causa do mal-estar, Gabriella consultou até homeopatas. Uma ração de ovelha, que custa R$ 700 por mês, foi a solução. Saudável, Brownie freqüenta até a piscina da casa. Para evitar novas irritações no pêlo, o cão toma banho com produtos antialérgicos. ?A prevenção é fundamental, inclusive para o bolso?, alerta a veterinária Daniela Cichielo. Para se ter uma idéia, um exame de ultra-som ou um dia de internação pode chegar a R$ 500. Mesmo diante da modernidade do mundo animal, há quem acredite na eficiência da vida simples para os bichos de estimação, nos modelos da rotina de um cão da década de 70. ?O animal se adapta ao estilo e ao tamanho do bolso do dono?, diz Odete Miranda, voluntária nas organizações de proteção dos cães e gatos. Êta vida de cão.
R$ 160 é o valor para escovar os dentes do cachorro |


