Atenção, consumidor de vinho: a bebida que você tanto aprecia pode não ser exatamente aquilo que o rótulo promete. Há chances de ela não passar de uma simples mistura de álcool de cana, açúcar e corantes. E se for um produto importado, também não há garantia: o que está chegando à mesa dos brasileiros pode não ser o mesmo consumido no país de origem. Análises feitas pelo Ministério da Agricultura têm constatado fraudes numa parte dos cerca de 300 milhões de litros de vinho e derivados vendidos anualmente no Brasil. São brancos, tintos, espumantes e champanhes que contêm as mais diversas substâncias, mas muito pouco vinho. Não é à toa que alguns deles são vendidos quase pelo preço de uma cerveja. ?A fraude costuma ser tão perfeita que os consumidores sequer percebem a adulteração?, afirma João Seibel, presidente do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravi) .

Para combater esse safra de trambiques, produtores e governo estão se lançando a uma verdadeira cruzada. ?Deflagramos uma guerra contra o vinho ruim?, diz Odilson Luiz Ribeiro, diretor do Departamento de Defesa e Inspeção Vegetal, do Ministério da Agricultura. A guerra travada por vitivinicultores, secretarias estaduais e Ministério da Agricultura engloba um arsenal de medidas incluídas no Plano Estratégico da Vitivinicultura Brasileira. No caso dos importados, o Ministério da Agricultura deve baixar nos próximos dias uma portaria restringindo o acesso de vinhos de procedência duvidosa. A bebida importada, que no ano passado somou quase 30 milhões de litros, somente poderá cruzar as fronteiras se tiver o registro do estabelecimento de origem. Outra exigência obriga os importados a serem exatamente iguais aos vendidos no país de origem. É a sentença de morte para vinhos comprados em leilões no exterior e de linhas de menor qualidade produzidas exclusivamente para o mercado brasileiro. A União Européia não gostou das medidas, mas o governo brasileiro garante que não vai recuar. ?Medidas como essa são reconhecidas pela Organização Mundial do Comércio?, garante Carlos Alberto Teixeira, coordenador de Inspeção Vegetal do Ministério da Agricultura.

Simultaneamente, o governo também acelera o credenciamento de laboratórios para realizar os novos testes de qualidade que estão sendo introduzidos na produção nacional — e alguns resultados já começam a aparecer. Em dezembro passado, por exemplo, a polícia apreendeu quase 30 mil caixas de derivados de vinho que continham menos de 40% do produto. O caminho escolhido pelo Brasil para melhorar a qualidade do vinho é o mesmo trilhado no passado por Argentina, Austrália, Nova Zelândia, Chile, e, mais recentemente, Portugal. O caso dos portugueses é emblemático. A fama dos vinhos portugueses por pouco não sucumbiu aos produtos de baixíssima qualidade que estavam invadindo as prateleiras de todo o mundo. A criação de um selo de qualidade e o desenvolvimento de novas variedades recolocaram Portugal no pódio dos grandes produtores do planeta ? um case que merece ser aprendido pelos brasileiros.