Ouça um resumo da matéria sobre os conflitos de interesses nas empresas de Eike Batista

 

 

35.jpg

 

Imagine que você seja acionista de uma empresa de petróleo. E que ela decida realizar uma encomenda bilionária de navios. O que você esperaria dos gestores? Provavelmente, que promovessem uma concorrência internacional para adquirir as embarcações mais baratas do mundo. No modelo do bilionário Eike Batista, é diferente.

Ele, que é dono da OGX, uma empresa de petróleo em fase pré-operacional, protocolou na segunda-feira 1º o prospecto da oferta pública inicial de seu novo projeto, a empresa naval OSX. E o que a OSX, que jamais produziu um único bote e possui apenas um terreno na cidade catarinense de Biguaçu, oferece aos investidores? A encomenda bilionária de navios da própria OGX. Ou seja: se o negócio for muito bom para a OSX, talvez não seja para a OGX ? e vice-versa. O que suscita dúvidas sobre o modelo de negócios de Eike. ?A oferta de ações pode dar errado porque uma empresa carrega o risco da outra?, diz Eduardo Roche, gerente de análise do Modal Asset Management.

Conflitos de interesse não são novidade nas empresas de Eike. O porto LLX, por exemplo, nasceu para escoar o minério da MMX, a mineradora do mesmo grupo, cujos resultados financeiros e operacionais estão abaixo das expectativas. A empresa de energia térmica MPX também vendeu aos investidores um megaprojeto que seria feito no terreno da LLX.
 

36.jpg
US$ 263 mil É quanto a Ogx, que ainda é pré-operacional, pagará por mês pelos navios da Osx

É como se cada roda da bicicleta servisse para puxar a outra. Ainda assim, ele vem tendo sucesso. Seus IPOs captaram R$ 9,7 bilhões desde 2006. Somente a OGX, lançada na onda da descoberta da camada pré-sal, lhe rendeu R$ 6,7 bilhões. E a holding EBX terminou 2009 como o terceiro maior grupo privado do País em valor de mercado, avaliado em R$ 69 bilhões.

Destes, R$ 25 bilhões pertencem aos sócios minoritários que encontraram na bolsa a oportunidade de apostar no modelo de negócios do empreendedor ? no caso da OSX, a aplicação mínima será de R$ 300 mil, o que já afasta pequenos investidores.

Para conquistar a confiança do mercado, as empresas de Eike usam e abusam de um expediente legal de comunicação: os fatos relevantes. A MMX já publicou 174 desde a abertura de capital. MPX (com 89), OGX (com 76) e LLX (com 56) não ficaram muito atrás. O excesso de informações pode ser um benefício para as análises das empresas.

Mas a estratégia do ?senhor fato relevante?, como Eike tem sido chamado por alguns analistas, também pode ser vista de outra forma. Apenas mantém aquecida a esperança de as empresas passarem a operar a todo o vapor, o que embala as cotações. No ano passado, o empresário foi multado em R$ 100 mil pela CVM, por ter falado demais sobre o IPO da OGX. ?O comportamento atual dele pode ser tanto uma forma de se precaver quanto realmente uma maneira de manter seu grupo sempre em evidência no mercado?, afirma Milton Milioni, conselheiro da Apimec.

Tudo indica que a OSX repetirá a estratégia para atrair investidores, até que suas promessas virem realidade. O problema é que, até lá, o modelo de negócios de Eike Batista, em que uma empresa do grupo ajuda a puxar a outra, pode ser colocado em xeque.Como ele vai manter a bicicleta em movimento se alguma de suas apostas der errado? E se a OGX não encontrar todo o petróleo que precisa para honrar suas encomendas à OSX? O estaleiro, com o perdão do trocadilho, pode ficar a ver navios.