A conservadora alemã Ursula von der Leyen, que os dirigentes indicaram como a futura titular da Comissão Europeia, se esforçou nesta quarta-feira (10) para angariar o apoio das forças pró-europeias do Parlamento Europeu, às quais não consegue convencer.

“As respostas da candidata Von der Leyen (…) são imprecisas e preocupantes. Para mim é não!”, tuitou o eurodeputado ambientalista Yannick Jadot, em alusão a perguntas sobre o clima, a política agrícola e o acordo com o Mercosul.

A tarefa se anuncia difícil. Sua nomeação pelos líderes não caiu bem no Parlamento, que defendia que a seleção de um dos candidatos das famílias políticas nas eleições que optasse pela Comissão, um requisito que ela não cumpre.

Dos verdes aos social-democratas, passando pelos liberais, a atual ministra da Defesa da Alemanha buscou, assim, convencer além de seu Partido Popular Europeu (PPE, direita) com vistas à votação sobre sua investidura, prevista para a próxima terça-feira.

O que ela pensa sobre o clima, um dos principaistemas da campanha eleitoral, impulsionado pelos protestos estudantis? “A neutralidade climática em 2050 é uma necessidade”, disse Von der Leyen.

E a respeito da proteção de fronteiras para enfrentar a chegada de migrantes, a alemã defende antecipar o envio de 10.000 efetivos da agência de guardas fronteiriços e guarda costeira Frontex previsto para 2027.

Perguntada sobre o Brexit, a política de 60 anos é favorável a adiar novamente a saída dos britânicos do bloco, prevista para 31 de outubro, se o Reino Unido precisar de mais tempo para aprovar o acordo de divórcio.

Durante suas intervenções em inglês, francês e alemão, a política que pretende se tornar a primeira mulher a assumir a presidência da Comissão, defendeu a paridade, razão pela qual pedirá a cada país um candidato homem e outra mulher para o posto de comissário.

– A investidura no ar –

Para compor uma maioria em um Parlamento Europeu de 748 deputados, três a menos pelos assentos de políticos catalães declarados vagos, Von der Leyen busca o apoio das forças pró-europeias: PPE (182), social-democratas (154), liberais (108) e ecologistas (74).

Suas intervenções ante os diferentes grupos não acabaram por lhe abrir o caminho. “Sessenta por cento [dos social-democratas] votarão em Von der Leyen, e 40%, contra”, disse uma fonte do grupo, que deve tomar sua decisão na próxima semana.

“Evidentemente, não responde a todas as perguntas. Ela orienta a resposta em uma direção ou em outra, segundo a quem se dirige. É normal, está em campanha”, relativizou à AFP o eurodeputado liberal Pascal Canfin.

Os ambientalistas, para os quais a alemã “ignora a emergência climática”, anunciaram ao final que “Von der Leyen não é uma presidente da Comissão que o grupo possa apoiar”, segundo seu co-presidente Philippe Lamberts.

Embora a votação de investidura esteja prevista para a próxima terça-feira em Estrasburgo (nordeste da França), fontes parlamentares não descartam um adiamento, especialmente quando “começa a se espalhar a sensação de que se está indo rápido demais”.

A decisão sobre uma eventual prorrogação, que poderia inclusive se estender até setembro, corresponde aos líderes de grupo e da mesa do Parlamento, que se reúne na quinta-feira para fixar a agenda da próxima sessão plenária.

As eleições europeias de maio confirmaram o fim da tradicional grande coalizão entre o PPE e os social-democratas na UE e o relativo auge das forças eurocéticas e ultradireitistas no plenário.

Por enquanto, os pró-europeus se mantiveram unidos durante a eleição dos presidentes de comissões parlamentares, impedindo que os ultradireitistas do Identidade e Democracia (ID) conseguissem alguma.

A votação de investidura é secreta, razão pela qual, caso a coalizão pró-europeia não funcione, a alemã poderia buscar apoio em outras forças eurocéticas como Conservadores e Reformistas, com as quais se reuniu na terça-feira.

A alemã já conseguiu reunir na semana passada no Conselho Europeu o apoio de dirigentes eurocéticos como o da Polônia ou da Hungria, que tinha conseguido bloquear pouco antes a candidatura do social-democrata Frans Timmermans.