Uma oportunidade histórica vai se apresentar nos próximos dias ao presidente Fernando Henrique. Em reunião na quarta-feira 14 com o brigadeiro Carlos Baptista, comandante da Aeronáutica, ele acertou a convocação do Conselho de Defesa Nacional para o mês de agosto. Será o momento de colocar um ponto final na licitação internacional de US$ 700 milhões para a compra de caças supersônicos de combate. Entre as opções que estarão postas
à grande mesa oval do Palácio do Planalto, sob as vistas
dos comandantes das três armas, do vice-presidente e dos
ministros da Defesa e da Fazenda, o presidente estará diante de um produto americano, o caça F-16 fabricado pela Lockheed Martin, um russo, o Sukoi 35 feito pela Rosoboronexport, um anglo-sueco, o Grippen do consórcio Saab/BAE, e um franco-brasileiro, o Mirage 2000/BR desenvolvido pela Dassault em parceria com a Embraer. Qual será a sua escolha?

 

Com os interesses de uma empresa brasileira estratégica em jogo, poucos acreditam que, às vésperas da eleição, o presidente aceite correr o risco de prestigiar indústrias estrangeiras em detrimento de um produto com chancela nacional. ?Seria um absurdo?, confidenciou na semana passada o presidenciável Lula, do PT, a interlocutores de seu partido. ?Fernando Henrique não teria como justificar uma decisão de endividar o Brasil em mais 700 milhões de dólares para comprar produto estrangeiro?. O presidenciável Ciro Gomes, do PPS, igualmente acha inaceitável qualquer decisão que não seja favorável à Embraer. ?Nesse caso, vamos rescindir o contrato?, afirma o deputado Luiz Antônio Fleury, do comando da campanha de Ciro. ?É Embraer ou Embraer.?

 

O receio de que uma surpresa desagradável aconteça ao final do ?longo, penoso e árduo? processo licitatório, na expressão de um técnico do Ministério da Defesa, é compreensível. Brasília foi tomada nos últimos dias por uma série de informações desencontradas sobre a conclusão da maratona de conversas, troca de informações e experimentações de cada um dos aviões em disputa. Na reta final desse processo, de azarão o anglo-sueco Gripen teria passado à condição de franco favorito para ser comprado pelo Brasil, conclui-se pelos boatos. Até mesmo o recente pacote de ajuda de US$ 30 bilhões negociado pelo Brasil com o FMI vem sendo mencionado para justificar uma possível vitória do consórcio europeu. De acordo com essas versões, o governo brasileiro estaria sendo pressionado a comprar os Gripens porque eles são fabricados, em parte, por um grande sócio do Fundo, a Inglaterra. Funcionaria, assim, a famosa lei da compensação.

 

Na onda de contra-informação sempre é lembrado o
esforço pessoal do ministro
do Desenvolvimento, Sérgio Amaral, para incluir como fator determinante da concorrência cláusulas de compensações comerciais ao
Brasil pela compra dos caças. Teriam partido de suecos e ingleses as mais generosas promessas de off-set de toda a concorrência.
As contrapartidas chegariam, ao longo dos próximos anos, à casa dos US$ 2 bilhões em compras de produtos fabricados no Brasil.
?É uma história muito mal explicada?, reclama o deputado Paulo Delgado, da Comissão de Relações Exteriores da Câmara. ?Dizem
que a maior parte dessas compras seria de caminhões Scania, geladeiras Eletrolux e outros produtos feitos por companhias
suecas ou inglesas?.

Informação não contestada pela Aeronáutica dá conta de que os Mirages obtiveram a melhor pontuação entre os concorrentes. Esse julgamento teria acontecido num foro de 70 técnicos, incluindo os pilotos brasileiros que experimentaram os caças em vôos de teste. Para esta vitória também pesou, e muito, o fato de a francesa Dassault, que detém 20% do capital da Embraer, garantir largas margens de transferência de alta tecnologia à empresa nacional. Fontes ligadas à Embraer sustentam que, se os Mirages vencerem a concorrência nacional, isso serviria de impulso para novas vendas, o que poderia acarretar na instalação de toda uma linha de produção de caças no País. Essa promessa, de resto, já foi assumida publicamente pelo presidente da empresa, Maurício Botelho. O certo é que, visto por qualquer ângulo, o desfecho da licitação será eminentemente político. É por isso que, após sucessivos adiamentos, o Conselho de Defesa Nacional está sendo finalmente convocado. Com tantos interesses cruzados em jogo, a licitação só poderá ter um desfecho aceitável se tiver o respaldo do mais alto organismo de decisão da República. E seja a favor do Brasil.