09/11/2001 - 8:00
Na semana passada, os funcionários da fábrica da Via Anchieta da Volkswagen aprovaram por aclamação uma greve por tempo indeterminado ? uma cena que se repete há mais de 20 anos. Desta vez, porém, os metalúrgicos expuseram mais do que os braços erguidos na assembléia. O conflito trabalhista revela que a Volkswagen, maior empresa privada do País, está numa encruzilhada: ou consegue rapidamente atingir melhores índices de produtividade, ou pode perder a corrida por investimentos milionários decididos pela matriz. Por isso, a negociação com os trabalhadores liderados pelo presidente do sindicato Luís Marinho adquiriu dramaticidade inédita. A Volks propôs redução de 15% na jornada de trabalho e nos salários. Além
disso, quer trocar 6% do quadro de pessoal a cada ano, contratando gente nova com o contracheque 30% mais magro. Marinho não aceitou. A
companhia demitiu, então, 3 mil dos 16 mil funcionários da
fábrica. O anúncio tem jeitão da clássica estratégia ?bode na sala?, uma maneira para forçar a negociação. Mas dificilmente a novela chegará ao fim sem a dispensa de muita gente. Diante do impasse, Marinho embarcou para a Alemanha. ?Vou falar com o chefe do chefe?, disse, referindo-se aos executivos a quem o presidente da filial brasileira, Herbert Demel, se reporta. ?Não é possível que os trabalhadores sejam sacrificados porque a empresa não consegue melhorar seu desempenho.?
A pressão sobre a Volks vem menos do sindicato e mais de dentro de casa. Ela foi uma das montadoras que mais sofreram com a abertura de mercado e chegada de quase 10 novas concorrentes nos anos 90. A capacidade da indústria automobilística brasileira supera 4 milhões de veículos e a ociosidade atinge 50%. ?Estamos sob forte pressão por termos investido demais para o mercado existente no Mercosul?, diz Demel. Este ano, as vendas da montadora cresceram apenas 6%, contra 10,2% do mercado. A grande beneficiária foi a Fiat, com expansão de 19,9%. Isso custou à Volks a liderança histórica no setor. Sua participação caiu para 26,6% nos nove primeiros meses deste ano, contra 27,2% dos italianos.
Dentro de casa, a subsidiária brasileira também enfrenta pressões. Há uma permanente disputa entre as filiais da organização para receber investimentos em novas linhas e produtos. A escolha dos alemães recai sobre as unidades com custos menores e vendas maiores. É justamente aí que a fábrica da
Via Anchieta derrapa. A segunda maior unidade fabril da empresa no mundo é também a mais cara no Brasil. O salário médio pago ali bate em R$ 1,7 mil mensais. Em Curitiba, R$ 650,00. Outros itens, como energia e impostos, chegam a dobrar de valor para as fábricas do Estado de São Paulo.
A unidade da Anchieta passa pela mais profunda reforma desde a inauguração feita por Juscelino Kubitschek em 1958. Ali já foram investidos nos dois últimos anos R$ 2 bilhões. Tudo para receber a linha de montagem do Polo, primeiro modelo da família PQ24, a partir de meados de 2002. O Polo é um veículo intermediário entre o Gol e o Golf. A chegada de outros membros da família depende de uma brutal redução de custos. Não há outra alternativa, pois as demais unidades da empresa (Curitiba, Rezende e Taubaté) não têm capacidade para recebê-los. Só a linha do Polo produzirá 1,1 mil veículos por dia. A fábrica de Curitiba, por exemplo, tem capacidade de apenas 400 veículos por dia. É no tamanho da fábrica do ABC que Marinho aposta para reverter as demissões. Ele propõe que a Volks fabrique lá o Tupy, um possível sucessor do Gol. É uma alternativa a ser considerada, pois poderia impedir a já longa fila de desempregados no Brasil.