O convite partiu diretamente do ministro Pedro Malan. Na conversa reservada no Ministério da Fazenda, há dez dias, Malan foi direto ao ponto. Disse ao advogado carioca Luiz Leonardo Cantidiano que ele era a pessoa mais qualificada para assumir a presidência da Comissão de Valores Mobiliários e que não aceitaria um não como resposta. O cargo, na prática, equivale ao posto de xerife do mercado financeiro e Malan apostou suas fichas no fato de Cantidiano ser não apenas um profundo conhecedor do direito societário, mas também um homem de mercado, presente em vários negócios de fusões e aquisições. O problema é que muitos desses negócios foram feitos com o Opportunity, um dos grupos financeiros mais polêmicos do País. É isso que pode complicar sua sabatina do Senado, ainda sem data marcada. ?Vamos investigar as relações entre o
Cantidiano e o Opportunity?, ameaça o procurador Luiz Francisco de Souza. Luiz Francisco alega que há uma série de processos na CVM relacionados ao grupo de Daniel Dantas, que estão parados. ?Já desconfio que a intenção do governo é fazer com que as investigações não avancem?, acusa Henrique Pizzolato, ex-diretor da Previ, afastado durante a intervenção.

De fato, Cantidiano, como advogado, prestou serviços importantes para o Opportunity. Foi ele, por exemplo, quem arquitetou o acordo de acionistas da Newtel, uma empresa de telefonia celular. Cantidiano também montou a operação que permitiu a entrada do Opportunity na Telemar. Mas ele também conta com defensores insuspeitos. ?O Cantidiano será um grande presidente da CVM?, diz Francisco Costa e Silva, ex-presidente da autarquia e advogado que representa justamente os fundos de pensão nas disputas jurídicas com o Opportunity. ?Ele saberá muito bem separar o papel do advogado do papel de homem público.? Costa e Silva tem uma sugestão que, em tese, resolveria a questão. Cantidiano poderia, simplesmente, se declarar impedido de analisar questões relacionadas ao Opportunity.

Sua indicação para a CVM chega em um momento ainda mais importante, em razão da dimensão adquirida pelo órgão. Com
a nova Lei das Sociedades Anônimas, a CVM ganhou mais
poderes. Em vez de regular apenas o mercado de ações, todos
os fundos de investimento renda fixa e também as operações
da Bolsa de Mercadorias & Futuros, antes sob o guarda-chuva do Banco Central, passaram a ser supervisionados pela CVM. Seu presidente e seus diretores terão mandatos fixos, de cinco anos. Caso sejam aprovados pelo Senado, não poderão ser demitidos
nem pelo próximo presidente.?