Na semana passada, a executiva Anne Mulcahy, presidente mundial da Xerox, desembarcou no Rio do Janeiro para uma visita relâmpago. Sem alarde, Mulcahy desceu do jato da própria companhia, assinou diversos papéis e, poucas horas depois de pisar em solo brasileiro, embarcou de volta aos Estados Unidos. A pressa de Anne era proporcional à importância dos documentos assinados por ela. Tratava-se de uma parceria bilionária com o Itaú, o segundo no ranking dos bancos privados. Graças a ela, o banco passa a financiar a compra de qualquer equipamento da Xerox no Brasil. Dessa forma, a instituição das famílias Setubal e Villela engordará sua carteira de crédito em R$ 1 bilhão no prazo de cinco anos. ?Para nós, é importante apoiar a Xerox e atender seus clientes em suas necessidades financeiras?, diz Roberto Setubal, presidente do Itaú.

Já para a Xerox, o negócio significa a conclusão de um profundo processo de reestruturação iniciado em meados de
2000. Desde então, a companhia vendeu
US$ 3 bilhões de ativos descasados
de sua atividade central e demitiu cerca
de 13 mil trabalhadores. A terceira ação era justamente passar adiante a atividade de financiamento aos clientes. A parceria com o Itaú é a concretização dessa meta. ?É uma das mais importantes decisões na história da empresa no mercado brasileiro?, diz
Guilherme Bettencourt, presidente da subsidiária local da Xerox. ?Agora, poderemos concentrar toda a energia em nosso negócio central.? Os primeiros passos já foram dados. Somente neste ano, a empresa lançará 20 produtos, de softwares para gerenciamento de documentos a novos modelos de copiadoras.

O acordo assinado com o Itaú coloca do avesso o modelo
histórico de negócios da Xerox. Desde que se instalou no Brasil, há 37 anos, a empresa aluga suas máquinas para os clientes ? seguindo o modelo utilizado pela corporação em todo o mundo. Cerca de metade do faturamento de R$ 2 bilhões em 2001 veio justamente da locação de equipamentos. Isso exigia um fôlego financeiro de maratonista, pois consumia milhões e milhões de dólares do capital de giro. Na reestruturação comandada por Anne, a Xerox decidiu vender, e não alugar, seus produtos. A partir daí, procurou
parceiros que pudessem assumir a tarefa de financiá-los. A ordem, garante Bettencourt, era que não houvesse aumento de custos para os consumidores. ?O desembolso mensal para pagar o empréstimo será similar ao valor do aluguel?, diz ele. ?Além disso, o cliente passa a ser dono da máquina.?

Nos Estados Unidos e na maior parte dos países da Europa, a GE Capital foi a escolhida para assumir a parte financeira. No Brasil, os seis maiores bancos privados participaram da ?concorrência?. O Itaú levou a melhor por diversos motivos, segundo Bettencourt. O principal deles é que parcela significativa dos 100 mil usuários de equipamentos da Xerox também trabalha com o Itaú. Mais de 80% das grandes empresas são clientes comuns dos dois gigantes. No caso das médias e pequenas, essa proporção cai para 40% e 35%. ?Isso facilita a concessão dos empréstimos porque já temos a análise de crédito dessas companhias?, diz Marco Bonomi, diretor da Itaucred, o braço de crédito ao consumidor do banco.

O Itaú oferecerá duas modalidades de financiamento para a aquisição de equipamentos Xerox. Para pagamentos em até 24 meses, as empresas podem optar pelo Crédito Direto ao Consumidor (CDC). Para prazos superiores, a alternativa é o leasing. Um gerente e uma equipe de cinco pessoas do Itaú montarão um pequeno núcleo do banco na sede paulistana da Xerox para atender os interessados. Eles oferecerão taxas de juros que, segundo Bonomi, serão ?muito competitivas em relação às praticadas no mercado? ? uma competitividade que a Xerox persegue com afinco nos últimos anos e, agora, acredita estar pronta para conquistar.