07/12/2005 - 8:00
?Disseram que eu voltei americanizada/ Com o burro do dinheiro/ Que estou muito rica/ Que não suporto mais o breque do pandeiro/ E fico arrepiada ouvindo uma cuíca?.
Desta vez ninguém poderá acusá-la de ter retornado americanizada ao Brasil, como na célebre canção de Luís Peixoto e Vicente Paiva, irônica resposta aos que acusavam a Pequena Notável, nos anos 1940, de ter vendido a alma ao Tio Sam. Cinqüenta anos depois da prematura morte, com apenas 46 anos de idade, Carmen Miranda retorna ao Brasil brasileríssima. Desembarca a bordo de um volume de 600 páginas escrito pelo jornalista carioca Ruy Castro a convite da editora Companhia das Letras. É o carro-chefe de uma modalidade de literatura que não pára de crescer, ainda que a passos tímidos: as biografias. É o caso de revirar os olhinhos, agitar os balangandãs e exclamar: yes, nós temos biografias. De 2000 a 2003, os títulos biográficos saltaram de 210 para 295. Parece pouco, mas a quantidade de exemplares vendidos demonstra o fôlego dessa família: foram 452 mil em 2000 diante de 1,02 milhões em 2003, segundo os mais recentes dados já tabulados pela Câmara Brasileira do Livro. É crescimento que acompanha o mercado editorial no País. O faturamento anual global do setor cresceu 4,8% entre 2003 e 2004, com um faturamento que era de R$ 2,3 bilhões e chegou aos R$ 2,4 bilhões. Está longe de ser espetacular, mas permite renovadas apostas no futuro.
O nicho das biografias amplia-se ancorado numa tendência mundial do casamento da literatura com o jornalismo. As prateleiras de auto-ajuda e as dos best-sellers internacionais como os de Dan Brown vencem ainda qualquer disputa ? mas os perfis começam a despontar com vigor. Por que? ?Políticos, esportistas, artistas, qualquer um tem uma boa história, com elementos mais ricos que os da ficção?, arrisca Marino Lobello, vice-presidente de comunicação da Câmara Brasileira do Livro. ?O potencial de vendas é enorme, sobretudo se os personagens forem celebridades?. É o caso de Carmen Miranda ? e por isso a editora pôs fichas robustas no lançamento. A tiragem inicial é de 40 mil exemplares (dez vezes mais que a de uma edição normal, sem anseios maiores). Foram investidos R$ 100 mil na divulgação, com direito a cartazes nas livrarias, chamadas nas rádios e dois eventos gigantes, um deles na pérgula do Copacabana Palace, no próximo dia 18, como manda o figurino no caso de Carmen. Estima-se bons negócios. Estrela Solitária, também de Ruy Castro, a biografia de Garrincha, vendeu 90 mil unidades. Um outro campeão, Chatô, de Fernando Morais, teve 250 mil exemplares em onze anos de carreira.
Ruy Castro e Fernando Morais são os líderes dessa turma. O lançamento de livros da dupla costuma produzir estardalhaço, como ocorre agora com a vida de Carmen e também com o anúncio de que Morais pretende lançar, no primeiro semestre do ano que vem, livro em parceria com o deputado cassado José Dirceu. Há, na cola dos dois autores, nomes que ganham espaço, além de auto-biografias como a de Danuza Leão, sucesso de fim de ano. O jornalista Tom Cardoso escreveu as histórias de vida de Paulo Machado de Carvalho, o Marechal da Vitória da Copa de 1958, e de Tarso de Castro, o polêmico criador e colunista do tablóide Pasquim. Haroldo Ceravolo Sereza iluminou recentemente as idéias de Florestan Fernandes. ?A busca por biografias é cada vez maior?, resume Vera Esaú, gerente de comunicação das Livrarias Saraiva, com 32 endereços em todo o país. Pode-se atribuir essa procura a um triplo amadurecimento, segundo a interpretação de Ruy Castro: dos escritores, do público e das fontes de informação. ?Em minhas primeiras biografias, como no caso de O Anjo Pornográfico, perguntava aos entrevistados que cigarro fumavam e muitos riam?, diz Castro. ?Agora eles já entendem que todos os detalhes são fundamentais?.